Política real e política virtual

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Política real e política virtual, n. 474, 12 nov. 2005.

 

 

Não concordo com a política monetária e com boa parte da política econômica do governo Lula. Discordo da lentidão com que a direção do PT está tratando a conduta política (não penal) dos dirigentes que praticaram irregularidades e delinqüências e jogaram o partido na crise atual. Considero que o socialismo continua sendo a alternativa viável à barbárie capitalista. E poderia listar inúmeros outros pontos de discordância com setores do governo e do PT. Apesar disso, procuro fazer política real, não virtual.

O que me obriga a repetir coisas que já disse em outros comentários.Afinal, quem são os inimigos do povo brasileiro? Lula e o PT? Se é assim, porque PSDB, PFL e a ala mais conservadora do PMDB (para ficar apenas nesses) estão travando uma guerra de destruição contra o PT e o governo? Por acaso aqueles representantes das oligarquias se transformaram em esquerda, enquanto o PT e o governo tornaram-se a direita e os representantes da burguesia?

Embora metamorfoses sejam parte da vida, não consigo vislumbrar Bornhausen, FHC, Serra e outros como “amigos do povo” e “inimigos dos banqueiros e financistas”. Ao contrário, continuo enxergando nessas figuras e naqueles partidos a representação política dos setores mais perniciosos da capital. Alguns desses setores podem estar “felizes” com sua lucratividade momentânea. Mas, certamente não confiam num governo e num partido em cujo seio se trava uma persistente disputa por uma outra política monetária e por uma política econômica mais ampla. Como todo grupo que tem clareza de seus interesses de classe, os setores dominantes do capital preferem fazer com que a “raça” petista fique distante do poder, pelo menos, por outros 30 anos.

Se tenho isso claro, e sei quem são meus inimigos, por que vou fazer coro com eles? Por que vou apoiá-los e também trabalhar pela destruição do PT e do governo Lula? Apesar de minhas discordâncias, tenho consciência de que, quando as contradições se agravam e chegam ao ponto em que chegaram, a disputa real se reduz a dois lados.

Nesses casos, a pretensa construção de uma terceira via acaba, em geral, num impasse. Quem pensa em construir uma alternativa política à parte do enfrentamento concreto das contradições reais, infelizmente se vê obrigado a fazer as escolhas inevitáveis entre os pólos em luta, e não as escolhas que desejaria. Aliás, isso já é o que está acontecendo no parlamento. Alguns companheiros que abandonaram o PT, por acharem que ele acabou, se vêm, objetivamente, aliando-se à direita. O que tem ocorrido até nos absurdos, como nas ameaças de surra no presidente.

Na prática da luta real, a terceira via, a alternativa política e a neutralidade virtual vão para o espaço, quando as condições se estreitam.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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