Política e coragem

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Política e coragem, n. 500, 20 mai. 2006.

 

 

O ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, deu uma longa entrevista ao Correio. Afirma corretamente que Collor e FHC “tentaram acabar com o BNDES, convertendo-o em um banco de investimento”, enquanto Lula convidou-o a presidir o BNDES, para resgatá-lo “como um protagonista do desenvolvimento”.

Lessa também afirma que, no período à frente do banco, não teve “falta de apoio do presidente”. Apesar disso, quando o chefe do BC disse, numa conferência, “que os culpados pela inflação no Brasil eram os juros baixos que o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil cobravam”, ele decidiu conceder uma entrevista, classificando de “pesadelo” “a política monetária do governo Lula”, tendo sido demitido. Sua conclusão é que Lula “recuou”, “intimidado com as ameaças” do “capital financeiro”.

Lessa não levanta a hipótese de haver cometido um erro de tática política, caindo na provocação de Henrique Meirelles e, ao dar a entrevista, deixando Lula sem outra opção que demiti-lo. Ainda parece não entender as disputas presentes no seio do governo, primeiro em torno da visão de desenvolvimento, depois em torno do controle inflacionário. E que tais disputas só se resolvem no campo da prática política, da mobilização de forças sociais e políticas, e não no campo da coragem pessoal.

Ele prefere dizer que Lula “não teve coragem, amarelou, bateu em retirada” no enfrentamento com “os grandes bancos, o mercado de capital, o capital estrangeiro e o diabo”. É interessante que ele confesse não saber que base social Lula teria para dar sustentação àquelas mudanças, porém afirme que ele “tinha todas as condições”. Quando se sabe a base social e política que vai dar sustentação a tal ou qual política e, portanto, a correlação de forças entre tal base e os adversários de tal política, é possível assegurar a existência de “condições”. Se não se sabe a base social e política que existe, como se pode falar em “todas as condições”?

Lessa talvez devesse perguntar por que o governo Lula consegue ter uma política externa “corajosa, sensata, correta”, “infinitas vezes mais afirmativa que a política de FHC”. Não será porque a maior parte da burguesia brasileira, assim como do capital internacional aqui instalado, concorda com ela? Nesse caso, a resistência da burguesia dominante é pequena e, mesmo sem grande mobilização social, é possível levá-la adiante.

Podemos até concordar que Lula poderia ter enfrentado mais decididamente “os grandes bancos, o mercado de capital, o capital estrangeiro e o diabo”. Mas precisamos demonstrar a existência da base social e política de sustentação a tal enfrentamento. Precisamos mostrar que as resistências da burguesia produtiva não cresceriam, e que seria possível contar com uma mobilização popular visível. Sem isso, o mais fácil é culpar a coragem, que pode ser necessária, mas não suficiente, ainda mais tendo o diabo como adversário.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *