Pois é!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pois é!, n. 418, 09 out. 2004.

 

 

Pois é! Apesar das propostas de voto nulo, voto crítico ou, mais explicitamente, voto no PSDB, sob a alegação de que o PT e o governo Lula aderiram ao neoliberalismo, a maioria do eleitorado brasileiro deu um voto de confiança no petismo.

A vitória eleitoral do PT e de vários partidos aliados do governo não foi arrasadora, como esperavam alguns de seus dirigentes, nem sancionou apenas uma das correntes internas do PT. Candidatos petistas, tidos como moderados, obtiveram tanto votações consagradoras, quanto derrotas. O mesmo aconteceu com candidatos petistas das correntes mais à esquerda. E o mesmo pode ocorrer nas 24 cidades onde o PT disputa o segundo turno.

Bem vistas as coisas, mesmo que o eleitorado não tenha uma clara consciência das disputas internas no PT e no governo, uma primeira leitura de suas escolhas mostra uma distribuição equilibrada de suas preferências, com uma leve tendência à esquerda. O exemplo de Fortaleza é emblemático, mostrando não só a resposta do eleitor a uma postura mais combativa, quanto o papel decisivo que a militância pode desempenhar. Para quem achava que a militância petista havia desaparecido, não deixou de ser uma contra-prova.

Pode-se dizer que se precipitaram em sua avaliação aqueles que supõem resolvido o problema dos rumos do PT e do governo Lula. As eleições municipais de 2004 criaram uma nova situação interna no PT, seja pelo fortalecimento de novas lideranças regionais fora de São Paulo e Rio Grande do Sul, seja pelo fato de que várias dessas lideranças alinham-se mais com a esquerda do que com o centro. Então, tendo ou não razão em suas discordâncias sobre as políticas do governo federal, aqueles setores “críticos” abandonaram uma boa oportunidade para colocar em disputa suas opiniões e conquistar força.

É verdade que eles podem alegar que eleições são uma forma rudimentar de luta política, com grande interferência do poder econômico e da máquina ideológica, e que somente a luta social e revolucionária pode resolver os problemas do país e das camadas populares. No entanto, se nas lutas políticas rudimentares o poder econômico e a máquina ideológica jogam tão pesado, imagine-se o que farão diante da emergência de lutas radicais. A pergunta que fica é: se não somos capazes de elevar a um nível mais elevado uma luta rudimentar, seremos capazes de empolgar e enfrentar uma forma de luta mais dura e complexa? Se não conseguimos fazer o menos, conseguiremos fazer o mais?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *