Pois é!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pois é!, n. 467, 24 set. 2005.

 

 

Pois é! Cronistas de diferentes filiações políticas afirmavam que o PT acabara. Sua militância estaria não só perplexa com o que parte da sua direção fizera, mas também desanimada, e desembarcando do partido. O processo de eleição direta (PED) certamente não daria quorum. Na mesma linha, a revista Veja, cujas páginas pingam ódio ao petismo, vaticinou que o PT “era vidro e se quebrou”.

Já antes da crise, uma parte do partido se adiantara, supondo que a militância petista seria incapaz de reagir. Saltou da nau, antes de ela começar a fazer água, fundou o PSOL, ou foi cuidar da vida. E tem se destacado pelas alianças com o PSDB e o PFL. Sempre com a pretensão de afundar de vez, com desonra, sua antiga sigla e o governo Lula.

Outra parte, também descrente da reação da militância, vinha ameaçando abandonar o partido. Abalada com os desvios que imputa ao governo e, mais ainda, com as trapalhadas espúrias de uma parte da direção petista, pensava que haviam se esgotado todas as possibilidades de uma recuperação.

Alguns outros mostravam a mesma descrença, ao considerar o PED um perigo, que poria à mostra as fraquezas e divisões internas, e acabaria por enterrar o partido. Preferiam o adiamento das eleições para as novas direções e para a presidência do PT, embora isso provavelmente representasse um risco ainda maior para a sobrevivência
partidária.

Havia ainda uma outra parte que nutria a esperança de que uma abstenção massiva favoreceria sua permanência na direção. Negando-se a reconhecer sua responsabilidade política na crise, agarrava-se como cão faminto ao que supunha serem os ossos restantes do partido, porém uma sigla que ainda poderiam usar.

Bem vistas as coisas, todos erraram. A militância petista, a chamada base, além de dar uma enorme lição de democracia às sociedades civil e política, mostrou a todos como enxerga o PT. Ao contrário dos céticos, sabe da importância desse partido como instrumento político de luta. E deu uma demonstração de que está disposta a interferir na vida partidária, para corrigir os malfeitos e recolocar o PT em seu caminho histórico.

A militância deu seu recado. Quer acertar as contas com os dirigentes que cometeram irregularidades. E, mais do que isso, quer reformular o partido do ponto de vista ideológico, político e organizativo, tendo como parâmetros os fundamentos de sua criação.

Pois é. Apesar disso, alguns jornais botaram pêlo em ovo, descrevendo o PED como um grande festival de fraudes. Nem se aperceberam que o PT pode ter dado o primeiro passo para retomar a iniciativa e passar à contra-ofensiva política.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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