Pobreza

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pobreza, n. 167, 03 nov. 1999.

 

 

Tem gente, como ACM e o FMI, que descobriram a pobreza. Preocupam-se com ela, como novos cruzados. Nada seria mais importante, hoje, do que a luta contra essa mancha. E, a exemplo de antigos cabos de guerra, querem puxar uma marcha redentora, sem partidarismos, sem ideologismos, em união nacional.

Já houve época em que tão belo gesto, partindo de alguém como ACM, seria impensável. Não, não é preciso voltar à colônia para ver como eram tratados os que denunciavam a pobreza. Não faz tanto tempo que Josué de Castro escreveu Geografia da Fome e, só por isso, era tido e havido como comunista radical.

Mas dizem que os tempos mudaram, o capitalismo mudou, e pessoas como ACM decidiram enfrentar a fera de frente. É bem verdade que no passado houve outros ACMs, que também não titubearam em dizer que os ricos estavam cada vez mais ricos, enquanto os pobres cada vez mais pobres, e que isso não podia continuar. Getúlio, Juscelino, Jânio Quadros. Até o general Médici, lembram? Todos foram, cada um a seu modo, cruzados da luta contra a pobreza.

Havia a sensação de salvadores trabalhando para acabar com ela. É verdade que, mesmo assim, a pobreza no Brasil não diminuiu. Mas aquela sensação desarticulou vontades, dispersou esforços e transformou a pobreza em rotina. Ela está em cada esquina, sob as marquizes, os viadutos, nas periferias. Espraiou-se. Está em toda parte. Tornou-se comum.

Talvez por isso, o ministro Malan  –  um dos que, segundo Lula, come todo dia  –  afirme que a situação não é trágica e pode ser resolvida a partir de 2002. Mas ACM, apesar de comer todo dia, e também ter 2002 em vista, diz que ela precisa ser resolvida desde agora, por estar ficando incontrolável.

Assim, Viva ACM, abaixo Malan! ACM tem tutano: disse que as elites brasileiras não têm sensibilidade e precisam ser espremidas. Conta com o apoio do FMI e está disposto a ir às últimas conseqüências nessa luta. Mas, conforme a tradição, se conseguir arrebanhar grandes manadas, é quase certo que acabará retornando ao espírito de conciliação e a cúpula se acertará.

Como oligarca malandro, não quererá morrer de inanição, sabendo que o capitalismo a que pertence mudou, mas não perdeu a natureza de vampiro. Resolvida a crise das elites, a pobreza pode ficar para depois, como sempre. Quem acreditou nele, poderá dizer que ganhou experiência. Será muita pobreza. Mas, que se há de fazer, se os pobres ainda não resolveram, eles próprios, dizer a que vieram, e combatentes como Dorcelina continuam tombando impunemente sob as balas assassinas?

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *