Pobre malanismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pobre malanismo, n. 301, 22 jun. 2002.

 

 

O ministro Malan é monocórdio por natureza. Mas a essa qualidade acrescentou a de repetitivo. Não há dia em que não se aproveite de uma palestra qualquer para reafirmar que o PT e Lula precisam se comprometer com a manutenção dos fundamentos econômicos do malanismo. Ele quer fazer crer que inflação baixa, câmbio estável e equilíbrio fiscal são os “seus” fundamentos econômicos.

Ninguém pode ser contra inflação baixa, câmbio estável e equilíbrio fiscal. Mas quando tudo isso está ancorado apenas na obtenção de superávits primários, seu uso serve apenas para encobrir objetivos escusos. Enquanto equilíbrio fiscal e superávits primários são possíveis por meio de crescente carga tributária, o malanismo parece funcionar. Porém, no momento em que se torna politicamente difícil continuar esfolando o povo como até então, aumentam as dificuldades.

A inflação tende a estourar as metas. O câmbio endoida. Tudo ameaça desandar. O mercado não se conforma em ganhar menos. Os 90 mil milionários que aumentaram em 8% sua riqueza financeira em 2001 (contra um crescimento de 0,7% da riqueza geral do país) não admitem “perdas”. Para eles, deixar de ganhar é igual a perder. Então, culpa do PT e do Lula, que não explicitam seus compromissos com o mercado.

Um dos problemas do malanismo é que aqueles indicadores precisam de fundamentos econômicos realmente sólidos. Dependem de contas externas equilibradas, endividamento compatível com a capacidade de pagamento e taxas razoáveis de crescimento econômico e de emprego. O malanismo quebrou essa sustentação.

Ponto fraco dos superávits primários como fundamentos econômicos: por mais que apertem os torniquetes fiscais, chegará o momento em que não haverá mais de onde retirar recursos para tais pagamentos. Resultado previsível: Equador, Venezuela, Peru, Argentina, Uruguai. E, como mostrou a experiência de De La Rúa, na Argentina, e agora, de Toledo, no Peru, comprometer-se com tal doutrina será desastre na certa.

E isso não depende da oposição. Estamos assistindo à ação do próprio mercado. Ele é que desarranja os indicadores da estabilidade e coloca à mostra os fundamentos do malanismo. Pior, humilha-o, maculando sua credibilidade, ao dar ao Brasil uma taxa de risco comparável à da Nigéria e pouco acima da taxa argentina.

O deus mercado quer o malanismo, mas não acredita nos seus fundamentos. Sabe que eles são tão frágeis quanto os do menencavalismo, do fujimorismo e outras variantes locais da doutrina escrita pelos sacerdotes do FMI. Sua sorte: os sacerdotes também estão com medo e liberaram uma blindagem de 10 bilhões de dólares. Sua desgraça: serem devidamente pagos com o aumento do superávit primário. Pobre malanismo, que não consegue sair de seu próprio labirinto!

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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