Pobre Machiavel

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pobre Machiavel, n. 273, 01 dez. 2001.

 

 

Com a empáfia que lhe é peculiar, o presidente determinou que era cedo para tratar de candidaturas presidenciais. O governo não acabou, disse enfaticamente em solenidade transmitida pela televisão. A hora é de trabalhar, sentenciou, só faltando dar um murro na mesa ou bater o martelo para dar o dito como definitivo.

Foi o que bastou para pré-candidatos da base governista, principalmente do PSDB, fazerem justamente o contrário. Tasso Jereissati tomou a iniciativa não apenas de confirmar sua disposição de postular a candidatura, mas também de cabalar aliados nos estados. Quer garantir as prévias no partido e evitar que José Serra seja escolhido por decisão unilateral de FHC e de parte da cúpula tucana.

A corrida no PMDB também se agravou. A executiva desse partido decidiu reduzir o colégio das prévias a menos de 4 mil eleitores selecionados, seja para derrotar Itamar Franco, seja para evitar qualquer surpresa com a solitária pretensão do senador Pedro Simon. Tudo com vistas a apoiar o candidato de preferência do governo. A perspectiva, então, é que o PMDB não trate de outra coisa, daqui para a frente.

Já o PFL, embalado pela performance publicitária da governadora do sofrido e maltratado Maranhão, está cada vez mais convicto de que é capaz de emplacar a candidatura de Roseana Sarney na aliança conservadora e, mais ainda, de vencer as eleições de 2002. A inflexão da mídia no destaque ao “fenômeno” Roseana, e a esperança que isso acendeu nos meios empresariais, deram gás ao partido e ele dificilmente se preocupará com outra coisa que não seja eleição presidencial.

Tudo isso já se reflete nas discussões e votações do Congresso, embora o governo despreze as preocupações eleitorais de seus aliados e teime em manter sua política neoliberal fundamentalista de maior arrecadação, arrocho salarial, corte dos direitos trabalhistas e repressão ao direito de greve. Em grande parte porque FHC se considera um Machiavel, capaz de jogadas contraditórias que sempre o coloquem em vantagem.

Como a de chamar o governador Garotinho ao Planalto para aconselhá-lo a manter sua disposição de concorrer à presidência, quase insinuando que sua fala sobre as candidaturas foi um engana-trouxa para despistar a oposição. Ou essa de realizar manobras de baixo nível para não cumprir as decisões judiciais, que mandam o governo pagar os salários do professores. Ou, ainda, essa outra de mandar o ministro do Planejamento descumprir o acordo com os grevistas da previdência, para depois voltar atrás e dizer que “acordo se cumpre”, logo ele que nunca cumpriu nenhum. Pobre Machiavel, invocado para a prática de golpes tão reles.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *