Pobre Lênin

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pobre Lênin, n. 455, 02 jul. 2005.

 

 

A ignorância histórica, mesmo quando não é praticada por má fé, produz barbaridades de todo tipo. Isso pode ser comprovado, agora mesmo, com o cipoal de problemas em que o PT foi envolvido, em virtude de acusações de corrupção pesando sobre alguns de seus dirigentes.

Alguns ex-militantes do PT, e jornalistas pouco afeitos aos contextos históricos, estão disseminando a teoria de que a responsabilidade pelos pretensos desvios de conduta daqueles dirigentes se deve a seu “viés leninista”, já que Lênin teria afirmado a justeza de utilizar formas “legais” e “ilegais” para alcançar os fins revolucionários.

Pobre Lênin! Em todos os seus documentos, escritos e obras políticas, toda vez que ele se referia a “formas”, ele queria dizer “formas de luta” e “formas de organização”, e toda vez em que se referia a formas de luta e formas de organização “legais e ilegais” estava tratando da legalidade ou ilegalidade diante do tsarismo.

Como é, ou devia ser sabido, o tsarismo era um regime monárquico absolutista, para o qual as greves e quaisquer outros tipos de manifestações sociais eram formas de luta colocadas no campo da ilegalidade. Os partidos, e não apenas os partidos revolucionários, também eram organizações ilegais diante do regime. Não esqueçamos que Dostoiewski, apesar de monarquista, foi preso e exilado na Sibéria pelo simples fato de ser um escritor realista.

Nessas condições, as formas de luta e de organização ilegais eram uma necessidade de sobrevivência. As formas de luta legais, permitidas pelo regime, eram frestas estreitas. Naquela época, Lênin era criticado pelos “revolucionários” extremados justamente por sugerir que tais frestas fossem aproveitadas ao máximo, ampliando os direitos democráticos.

Confundir os conceitos de legal e ilegal, utilizados por Lênin, com os conceitos de legal e ilegal da atualidade brasileira pode ser charmoso para quem procura pêlo em casca de ovo. Porém, não ajuda ao PT identificar, no seu próprio processo de construção, as raízes dos problemas com os quais se defronta na atualidade.

Talvez, se houvesse um pouco mais de ideologia como cimento de conduta de seus quadros, e muito mais de visão de classe em suas políticas, possíveis casos de corrupção fossem combatidos com mais rigor. Então, deixemos Lênin sossegado e vamos procurar em nossa própria história as causas que nos atormentam.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *