Plantando ventos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Plantando ventos, n. 192, 04 mai. 2000.

 

 

É trágico FHC, mas só quando os de baixo reclamam. Ele causou a mais brutal desestruturação econômica e social já vista pelo Brasil nos últimos 100 anos, mas longe dele considerar isso uma desordem. Ele sucateou boa parte do parque produtivo, alienou quase todo o patrimônio público, pretende vender o resto, abriu as portas para o predomínio monopolista estrangeiro, gerou um desemprego devastador, desorganizou as universidades, comprimiu o poder aquisitivo da maior parte da população e criou massas imensas de sem (terra, teto, dinheiro, nada…). Nem por isso considera haver criado alguma desordem.

Ele reduziu a meia-democracia, conquistada a duras penas na luta contra a ditadura, numa democracia de pura encenação, na qual o que vale mesmo são suas Medidas Provisórias e as reformas enfiadas goela abaixo do Congresso, através de sua maioria fisiológica, sem que lhe passe pela cabeça considerar isso um atentado ao regime democrático ou uma desordem institucional. Bastou, porém, que o protesto dos índios e das demais camadas sem-direitos transformassem em fiasco a encenação farsesca dos 500 anos; bastou que os sem-terra multiplicassem suas ocupações e protestos contra um programa de reforma-agrária que, além de assentar menos lavradores do que os que são expulsos diariamente de suas terras, não cumpre os compromissos que lhes permitiriam produzir; e bastou que outras camadas populares começassem a exigir melhorias em suas condições de trabalho e de vida, para que o presidente proclamasse sua ordem de fim à desordem.

FHC não pretende desfazer suas desordens para que a desordem dos de baixo não cresça. Ao contrário. Como qualquer reacionário da velha estirpe que dominou o Brasil, que considera qualquer desordem ou convulsão social um produto da ação de pessoas ou grupos insufladores, ele pretende utilizar as ameaças, a força bruta e a repressão para esmagar a insatisfação e o descontentamento populares.

Por incrível que pareça, ele e a burguesia que representa ainda não aprenderam que a desordem e a convulsão social são resultado de políticas empresariais e governamentais que pioram as condições de vida e trabalho das grandes massas do povo e as empurram para a luta por necessidade de sobrevivência. Não é preciso que ninguém as insufle. E, se as repressões podem contê-las, isso será apenas momentâneo se aquelas políticas continuarem e a necessidade de sobrevivência se tornar cada vez mais imperiosa.

O governo certamente não vai repensar suas estratégias, nem levar em conta os sinais de que, apesar do otimismo de seus membros, o que ocorre na base da sociedade é mais grave do que podem supor os mais pessimistas. Ele plantou muitos ventos, e vai plantar ainda mais. Em algum momento será obrigado a colher o que plantou e a responsabilidade será totalmente sua.

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