Plano de estado-maior

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Plano de estado-maior, n. 478, 10 dez. 2005.

 

 

A discussão sobre a existência ou não de um plano para derrubar o governo Lula ou, nessa impossibilidade, sangrá-lo mortalmente até as eleições de 2006, sempre esteve nublada pelas circunstâncias que cercaram a eclosão da crise política. Afinal, os dirigentes petistas que mais falavam em complô eram justamente os envolvidos em irregularidades e delinqüências, o que colocava sob suspeita suas afirmações e suposições a respeito.

No entanto, mesmo que tal armação não existisse antes da crise, hoje já não é possível ignorar que está em curso um verdadeiro plano de estado-maior, cujo objetivo, na hipótese mais branda que se possa supor, consiste em imobilizar o governo Lula e o PT. Ainda é difícil dizer se ele tem articulação direta com o tucanato-pefelista. No entanto, pode-se deduzir que, do ponto de vista político, essas forças são beneficiárias de sua existência e aplicação.

A recente devassa da Receita Federal na sede nacional do PT foi apenas um deslize público no desenvolvimento desse plano. Um simples levantamento da ação mais recente de setores consideráveis do ministério público, receitas federal e previdenciária, tribunais de contas, e outros órgãos do aparelho de Estado não controlados por petistas e seus aliados, pode detectar com facilidade uma ofensiva intensa, articulada e persistente, para inibir e dificultar as atividades do PT e do governo.

Aparentemente legal, essa ofensiva se aproveita dos desmandos de alguns dirigentes petistas para transformar qualquer indício de irregularidade em malfeitoria, paralisar ou adiar a implementação dos projetos governamentais prioritários, difundir acusações sem comprovação de veracidade, e impedir que o PT e o governo consigam comunicar-se efetivamente com a opinião pública.

Assim, imprensado por investigações e ações imobilizantes, tanto das CPIs quanto do aparelho de Estado, ao mesmo tempo em que se nega ou demora a investigar por conta própria a situação dos dirigentes que praticaram irregularidades e delinqüências, ou até mesmo se solidariza publicamente com eles, o PT torna-se refém de sua posição defensiva e de suas próprias vacilações.

Temos uma situação em que a postura do PT se reflete negativamente na opinião pública e no governo. Naquela, por levá-la a desacreditar do partido, ao punir apenas seu tesoureiro como responsável pelos desmandos e pela crise política. No governo, por ser incapaz de retomar a iniciativa e a direção política, no momento crucial em que se torna imprescindível realizar inflexões positivas nas políticas governamentais.

Em tais condições, seria um atestado de incompetência se os inimigos do PT e do governo Lula não montassem um plano de estado-maior para paralisá-los, sangrá-los e levá-los à lona.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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