Perspectivas 2007

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Perspectivas 2007, n. 532, 06 jan. 2007.

 

 

O que parece colocado diante dos socialistas (petistas, comunistas, populares e democráticos) é o desafio de transformar o governo de coalizão democrática do primeiro mandato num governo de coalizão democrática e popular, capaz de realizar reformas que quebrem o monopólio das corporações empresariais e financeiras.

Mais do que no primeiro, o segundo mandato Lula deve assistir a uma disputa ainda mais acirrada pelos rumos do governo. Primeiro, porque agora não teremos mais uma coalizão embuçada, mas sim aberta. Segundo, porque o enfraquecimento, isolamento, ou mesmo destruição do PT, não é apenas objetivo da oposição tucano-pefelista, mas também de alguns aliados da coalizão. Terceiro, porque do sucesso ou fracasso deste mandato dependerá, em grande medida, o resultado da disputa eleitoral de 2010 e, em conseqüência, a continuidade das políticas que têm a melhoria das condições de vida das grandes camadas populares brasileiras como centro.

Nessas condições, o que parece colocado diante dos socialistas (petistas, comunistas, populares e democráticos) é o desafio de transformar o governo de coalizão democrática do primeiro mandato num governo de coalizão democrática e popular, capaz de realizar reformas que quebrem o monopólio das corporações empresariais e financeiras, ampliem a participação do capitalismo democrático, da economia solidária e das empresas estatais, intensifiquem os processos de redistribuição da renda, reforcem a política externa de integração sul-americana e de diversificação das parcerias internacionais, e alarguem os canais de participação popular nos mecanismos de poder político.

Por outro lado, talvez não se deva desprezar a possibilidade de a burguesia querer dar um fim às atuais regras que permitiram as vitórias eleitorais populares. Se levarmos em conta as operações permanentes de desgaste do governo e da esquerda pela mídia, as crises emergentes em algumas áreas do setor púbico e do setor privado, todas elas debitadas na conta do governo, as ações de desmoralização do Legislativo, e os movimentos que visam transformar o judiciário num super-poder, capaz de engessar o executivo e o legislativo, com base na interpretação rígida do arcabouço jurídico, cujo fim é manter os privilégios daquelas corporações, é possível vislumbrar um quadro preocupante nas atuais ações aparentemente desconexas.

Para fazer frente a esses desafios, certamente cabe aos socialistas que participam do governo esforçar-se para imprimir a este não apenas a adoção de políticas que supostamente conduzam ao crescimento econômico. É preciso que esse crescimento seja acompanhado de distribuição da renda, do aperfeiçoamento da educação, da atenção ao meio ambiente, da criação de milhões de oportunidades de trabalho, através da democratização da propriedade urbana e rural, e da estruturação de um sistema de geração de ciência e tecnologia. O Brasil também necessita de uma reforma política que faça a representação parlamentar corresponder à votação de cada partido, e que implante a fidelidade partidária, a proibição do financiamento privado das campanhas eleitorais, e a participação pública na comunicação.

Por outro lado, essas não são questões restritas aos participantes do governo. Elas dizem respeito, e muito, aos partidos de cunho socialista e aos movimentos populares. Se estes mantiverem as presentes dificuldades para unificar-se em torno daquelas políticas e de suas prioridades, assim como dos inimigos a combater e dos aliados a conquistar ou neutralizar, dificilmente exercerão uma pressão efetiva e clara sobre a coalizão governamental, o congresso e o judiciário. Sem um acordo em torno de um programa mínimo para o segundo mandato do governo Lula, os socialistas de dentro e fora do governo continuarão primando pela dispersão de esforços e pela confusão quanto aos inimigos e aliados.

As perspectivas para 2007 parecem depender, portanto, não só do próprio governo, mas também da capacidade dos partidos de cunho socialista e dos movimentos populares de chegarem a um acordo sobre temas e ações comuns, e imprimirem uma nova dinâmica à vida política brasileira.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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