Pelo direito de criticar

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pelo direito de criticar, n. 118, 22 nov. 1998.

 

 

José Dirceu, presidente nacional do PT, enviou a Plínio de Arruda Sampaio, diretor deste Correio, um fax cujo teor foi publicado na edição passada (leia o fax de Dirceu no box ao lado).
O presidente do PT tem pleno direito de discordar do que escrevo, de comparar-me aos colunistas da Folha de São Paulo, de sentir-se injuriado, e até de me chamar de mentiroso. Não tem sequer o dever de demonstrar. Basta-lhe o argumento da autoridade documental.

Leia o Fax de José Dirceu ao diretor do Correio

“Li a coluna de Wladimir Pomar no Correio. É uma injúria, parece a Folha de S. Paulo. Dizer que nossa campanha “só gritou quando a crise estourou” é mentir. Os programas do PT e as ações da União do Povo estão documentados. Lamento que o Wladimir se comporte tal qual a mídia que ele deve criticar. O melhor é ele assumir dentro do PT suas posições e debater abertamente conosco.”

Este comentarista, porém, além de reafirmar seu direito à própria opinião, tem o dever de argumentar.

Mesmo que para isto tenha de servir-se de opiniões alheias. Como as de Tarso Genro, um dos coordenadores da campanha Lula de 1998, que diz, em artigo no número 39 da revista Teoria e Debate: “Todos os movimentos ofensivos de nossa campanha foram pautados ‘a partir’ e ‘de dentro’ da crise (dos últimos 45 dias do processo eleitoral), permitindo que Lula fizesse uma forte e qualificada denúncia do governo FHC… O ‘discurso da crise’ possibilitou que as nossas propostas alternativas alcançassem um grau de polarização inédito, desde a ascensão de FHC ao governo”.

Os leitores menos propensos a sentir-se injuriados com críticas talvez enxerguem semelhança entre a grosseira “só gritou quando a crise estourou…” e a elegante construção de Tarso. De qualquer modo, isto é só uma amostra de que críticas à campanha de 1998, mesmo quando acusadas de mentirosas e injuriosas, podem conter mais verdades do que qualquer documento.

Finalmente, o presidente do PT afirma que este comentarista, em lugar de se comportar “tal qual a mídia que… deve criticar”, melhor faria se assumisse “dentro do PT suas posições políticas” e debatesse “abertamente conosco”.

Estará ele, por acaso, insinuando que o diretor do Correio da Cidadania deve censurar o comentarista? Ou que somente “dentro do PT” são admissíveis críticas e um debate aberto? Ou, ainda, que críticas ao PT neste jornal serão sempre comparadas às maledicências da Folha e da mídia em geral?

Quero crer que José Dirceu, na ânsia de rebater aquilo que considerou ofensivo na coluna citada, atrapalhou-se com as palavras e disse o que não pretendia dizer. Mesmo porque, se há algo que o PT ensina a seus militantes e dirigentes, é o fabuloso direito de crítica e o inestimável dever de buscar a verdade nos fatos da prática.

Essas qualidades são imprescindíveis para o PT e a esquerda em geral tirarem as lições da campanha eleitoral e se capacitarem para enfrentar a crise em que o país foi lançado pela arrogância do tucanato-pefelista. Para isso, talvez o primeiro passo seja não sentir-se injuriado com críticas, mesmo tendo pleno direito a tal sentimento.

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