Pedro II

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pedro II, n. 155, 14 ago. 1999.

 

 

Além de um eclipse lunar e uma sexta-feira treze carregados de presságios, pelo menos cinco fatos marcam o início deste agosto: o retorno das atividades do Congresso, com os parlamentares impactados com o clamor das ruas; o consenso legislativo em torno da discussão sobre a pobreza e a miséria; o super lucro dos bancos no primeiro semestre; a entrevista de FHC em que prevê o surgimento de uma nova sociedade no Brasil; e a marcha e a concentração populares sobre Brasília.

Os deputados e senadores não conseguem esconder aquilo que ACM já reconhecera quando saiu de seu mutismo e propôs o imposto-pobreza: o descontentamento se alastra rapidamente. Nestas condições, a elite consciente se apressa em aplicar algum emplastro e encontrar um bode expiatório em quem botar a culpa.

É neste contexto que pode girar o debate, se a esquerda ficar limitada à pauta de ACM e não denunciar o capitalismo e a concentração da propriedade como as raízes das disparidades de renda, da pobreza e da miséria. E que Pedro Malan pode se tornar o grande vilão da história, na dificuldade de deslocar FHC prematuramente do poder e na certeza de contar com um substituto de confiança, como Armínio Fraga.

É também nesse contexto que a lucratividade dos bancos agrava a desconfiança popular e nacional sobre a que senhores FHC e sua coligação de poder realmente servem. Por mais que ACM, o PFL e o PMDB queiram desvincular-se do governo a que pertencem, em decadência, não podem desvincular-se da responsabilidade de privilegiar as corporações financeiras em detrimento dos pobres que agora, pretensamente, querem salvar.

FHC, porém, pensa estar criando uma nova sociedade, fruto da emergência de novas camadas de trabalhadores e, principalmente, de uma nova classe média. Tais camadas, beneficiadas pelo dinamismo dos setores produtivos mais modernizados a que estão ligadas, seriam muito numerosas e demonstrariam a mobilidade social ascendente do país.

Infelizmente, segundo ele, essas camadas ainda não possuem uma representação sindical e política, que expresse sua concordância com as reformas e a política do governo. Mesmo assim, acalenta o grande sonho de ser, para o novo milênio, o que Pedro II representou para a formação da sociedade brasileira.

É nas crises que se conhecem as qualidades humanas. Para um praticante de sociologia barata, só mesmo o sonho melancólico de comparar-se a um imperador medíocre. E uma boa mobilização social para fazê-lo cair na real.

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