Pauta Brasil-China

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pauta Brasil-China, n. 425, 27 nov. 2004.

 

 

Não deixa de ser irônico que empresários argentinos e brasileiros estejam numa santa aliança contra a “ameaça” chinesa de dumping, “estatismo”, preços baixos e por aí afora. Irônico porque, quem sempre engatinhou e sequer miou contra a desnacionalização dos respectivos parques nacionais, diante do financiamento público às grandes corporações transnacionais, para privatizar e fechar empresas locais “pouco competitivas”, agora se transforma em nacionalista xenófobo diante da China.

Vamos supor, no caso brasileiro, que haja mesmo uma boa dose desse nacionalismo e de sentimento de defesa da economia e da sociedade. E, deixemos um pouco de lado o fato de que são as multinacionais que estão no controle. Por que interessa ao Brasil e a seus empresários nacionais uma pauta de parceria estratégica com a China?

Independentemente do “estatismo” chinês (uma negação da propaganda sobre a expansão do capitalismo naquele país), interessa-nos estimular a multipolaridade mundial e reduzir o domínio unipolar sobre a ONU e demais organismos multilaterais. A China tem uma política clara nesse sentido, e tem apoiado todas as iniciativas brasileiras no sentido de fazer com que as potências industrializadas recuem de suas posições protecionistas e sejam mais abertas às reivindicações dos países em desenvolvimento.

Também interessa ao Brasil atrair capitais externos, em condições mais favoráveis, para reconstruir e ampliar sua infra-estrutura e seu parque industrial. Esta é uma questão estratégica para a consolidação do crescimento brasileiro. Os chineses, por seu turno, estão com grandes excedentes de capitais. São capitais de baixo custo, da mesma forma que grande parte dos bens produzidos na China, que eles se negam a aplicar no curto prazo. Querem aplicá-los em projetos de longo prazo, a baixas taxas de financiamento.

Nesse contexto, somente empresários com visão curta, ou a serviço de outros interesses, deixam de ver a importância das articulações internacionais do Brasil, em conjunto com a China e outros países, e as vantagens dessa disponibilidade de investimentos chineses para permitir a nosso país desenvolver-se com sustentabilidade. E, aprendendo com os próprios chineses, depende de nós estabelecer e negociar os critérios de reciprocidade e benefício mútuo que devem nortear tais investimentos.

Mas não dá para pensar que apenas nós devemos ganhar, como querem e estão acostumados alguns. Se não tivermos em conta isso, vamos nos perder na mesquinharia e deixar de aproveitar as oportunidades realmente estratégicas que a pauta da parceria estratégica Brasil-China oferece.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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