Patético

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Patético, n. 457, 16 jul. 2005.

 

 

O Diretório Nacional do PT perdeu uma oportunidade de ouro de sair da crise. Numa atitude patética, sua maioria não quis ouvir o que as ruas estão dizendo, acredita que mudando os móveis da sala resolverá a crise, e continua alimentando a idéia de que tal crise é apenas fruto de uma disputa ou golpe político.

Se a maioria do Diretório Nacional do PT ouvisse, ao menos, o mercado, essa etérea e reduzida porção da sociedade brasileira, não teria dificuldade em descobrir que uma parcela de seus membros, ao aplicar a política de alianças sem limites, enredou-se em negócios escusos que gente como Roberto Jefferson e outros não se cansam de operar. Como considerar parcelas do PMDB, PTB, PL e PP “aliadas”, sem cair nas práticas fisiológicas correntes desses setores? E, ao resvalar para tais práticas, como deixar de abrir os flancos para os ataques hipócritas da oposição e para a crise?

Em tais condições, sem reavaliar seriamente a amplitude e os limites da política de alianças do PT e do governo Lula, não haverá mexida de cadeiras, cargos e pessoas, nem punição de alguns bodes expiatórios, mesmo que nestes se incluam José Genoino e José Dirceu, que consigam resolver o problema. A crise de credibilidade continuará latente e poderá retornar com força a qualquer momento, por ação da oposição ou de qualquer um que se ache prejudicado.

A isso se soma, embora a maioria do Diretório Nacional não tenha se dado conta, a ofensiva de setores da burguesia para a adoção de propostas que visam resolver alguns dos problemas da política econômica, mas descarregando seus custos sobre a maior parte da população. A idéia de zerar o déficit nominal, limitando os gastos do setor público com saúde e educação, sem limitar os gastos com os juros, representa a assinatura de um cheque em branco, sem garantia de que os juros baixarão.

Assim, se a maioria do Diretório Nacional do PT pretende sair da crise, retomar a iniciativa política, reconquistar a militância e sua base social de apoio, e levar o governo Lula a bom termo, terá que demonstrar espírito auto-crítico, reconhecer publicamente os erros políticos que conduziram alguns de seus membros ao desastre, e puni-los exemplarmente, por investigação e iniciativa própria. Além disso, terá que se voltar para as questões sociais, econômicas e políticas em pauta, impondo limites aos altos juros e evitando que os já minguados recursos da saúde e da educação sejam erodidos pelo déficit nominal zero.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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