Paranóia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Paranóia, n. 267, 20 out. 2001.

 

 

O Império americano e seus seguidores estão sendo envolvidos pela armadilha que eles próprios armaram. Alimentaram a paranóia antiterrorista com o objetivo escuso de justificar seus planos e ações aterradoras, não só contra os terroristas fundamentalistas, mas contra os países que acusam de dar guarida a estes, e agora estão correndo o risco de ver seu país ficar paralisado diante de cartas contaminadas com armas biológicas.

Aliás, foram os EUA que desenvolveram, mais do que ninguém, armas bacteriológicas e as entregaram a diversos aliados seus de ocasião, como Sadam Hussein, para serem utilizadas contra o satã da época, o comunismo soviético e/ou chinês. Dessa maneira, o Antrax que está fazendo vítimas inocentes na Flórida e em Nova York, tanto pode eter saído dos arsenais de qualquer desses aliados, quanto dos próprios Estados Unidos.

Esse quadro que está encurralando o Império não justifica, porém, que o governo brasileiro estimule a mesma paranóia entre o povo brasileiro, colocando aviões de caça na fronteira sul, anunciando medidas extremadas de segurança e procurando introduzir na legislação dispositivos que cerceiam as liberdades civis, a exemplo do que tenta Bush nos EUA.

Ao contrário, o ambiente de pânico que está tomando conta do povo americano não ajuda em nada a luta contra o terrorismo. O que ele faz é incentivar a aversão contra qualquer pessoa de aparência fora dos padrões brancos impostos pela mídia ocidental, tornando-a de antemão suspeita de pertencer ao terror. O caso do avião da Rio Sul pode ser tomado como paradigmático da histeria que pode se instalar entre nós, se o estilo norte-americano de travar a luta antiterror se impuser.

O terrorismo é uma doença social, que surge como conseqüência da falta de opções a que são empurrados pelas políticas dominantes, imperiais ou não, vários grupos humanos, pequenos ou grandes. A história dos impérios romano, otomano, britânico e francês, para ficar apenas em alguns, mostra que o uso do terrorismo imperial, para esmagar o terrorismo antagônico que ameaça seu poder, pode até destruir seus inimigos, mas à custa de sua própria desagregação e de sofrimentos inauditos a seu próprio povo.

Ao solidarizar-se com o terrorismo de Estado de Bush, que praticamente destruiu o Afeganistão, provavelmente sem atingir qualquer dos terroristas de Bin Laden, ao invés de solidarizar-se apenas com o povo americano e advogar uma política que tenha como alvo exclusivo os verdadeiros terroristas, o governo FHC coloca nosso país numa órbita que pode nos levar a sofrer as mesmas convulsões pelas quais o Império está passando.

Nessa situação, a esquerda talvez devesse ser incisiva em propugnar uma política externa independente, que nos dissociasse da aventura guerreira dos círculos dirigentes do Império e exigisse a paz e a erradicação da miséria no mundo como condição básica para a superação do terrorismo.

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