Paradoxos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Paradoxos, n. 162, 01 out. 1999.

 

 

O Brasil certamente não é o único país a apresentar paradoxos, mas está entre os primeiros. No século passado, em pleno império escravista, nasceu entre nós uma corrente liberal, cuja base social não era uma burguesia nascente, mas justamente setores do próprio latifúndio escravista.

Na década de 30 deste século, a modernização industrial foi realizada não pela burguesia, mas também por setores ilustrados da oligarquia latifundiária, que derrubaram a oligarquia do café. As principais conquistas trabalhistas do Brasil, embora tenham contado com as lutas dos trabalhadores, foram realizadas preventivamente por essas mesmas oligarquias industrializantes, em geral contra a resistência “burra” da burguesia, como dizia Vargas.

Em 1989, com toda a mídia alardeando o fim do socialismo, um operário barbudo, acusado de comunista, socialista, expropriador da propriedade privada e outros “crimes” idênticos, empolgou os trabalhadores e grandes parcelas dos marginalizados e da classe média, quase conquistando o governo central da República, dentro das regras eleitorais estabelecidas pelas próprias elites.

Este último paradoxo, acompanhado de uma pesquisa posterior que comprovava, em pleno período de derrocada da União Soviética, a preferência da opinião pública brasileira pelo socialismo, em detrimento do capitalismo, gerou fenômeno não menos interessante. Para perpetuar-se no poder, as imutáveis-mutantes oligarquias brasileiras tiveram que passar a travestir-se de esquerda ou, na pior das hipóteses, de centro-esquerda, cooptando gente oriunda da esquerda para representá-la.

Suas contra-reformas não podem mais ser implantadas como tais. Precisam ter título, capa e contra-capa de reformas progressistas. Em 1994 e 1998, assistiu-se à realização plena e farsesca desse paradoxo. Agora, o fracasso das progressistas promessas neoliberais tem levado alguns a supor que o estoque de paradoxos se esgotou. O poder, sem alternativas, teria que decretar sua falência e apresentar-se com a própria cara.

Mas, aí estão o PPS e Ciro Gomes para mostrar que talvez os paradoxos brasileiros continuem surpreendendo. Pelo menos a badalação do poder midiático em torno da esquerda light já pavimenta o caminho para vender, como inovação tecnológica, uma melancia rosa por fora e verde por dentro. E não falta quem acredite.

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Mudando um pouco de conversa: a imprensa anunciou que os 400 maiores bilionários americanos possuem uma riqueza superior a um trilhão de dólares, maior do que o PIB da China, Brasil etc, o que é verdade. Poderia ter dito, também, que isso corresponde a cerca de um quarto do PIB americano, isto é, à renda de 80 milhões de outros americanos. Lá, como no resto, a concentração da propriedade e da renda assume contornos absurdos.

 

 

 

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