Para onde vamos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Para onde vamos, n. 232, s/d.

 

 

As avaliações da esquerda sobre o Fórum Social Mundial parecem vagar entre extremos. Algumas o abominam como instrumento dos organismos internacionais do imperialismo. Outras, ao contrário, o consideram uma demonstração dos golpes profundos que os movimentos populares estão desfechando contra a “ordem neoliberal”, que estaria desabando por toda parte. E todas, incluindo as sensatas, se perguntam: o que fará a esquerda?

A primeira coisa talvez seja retificar a idéia de que a “ordem neoliberal” estaria desabando. A “ordem neoliberal” não é senão uma forma particular da ordem capitalista e esta, que é o fundamental, não está desabando. O neoliberalismo cumpriu sua função de fazer com que o capital, baseado numa expansão sem precedentes de suas forças produtivas científicas e tecnológicas, avançasse em sua fase corporativa transnacional e tentasse elevar sua taxa média de lucro, ou margem de rentabilidade, através de uma circulação financeira sem precedentes.

Por outro lado, o componente ideológico e político do neoliberalismo – levar os povos a acreditar que sua “ordem” representava a oportunidade e o progresso econômico, social e cultural para todos, assim como governos com funções sociais e responsabilidades fiscais que só gastassem o que fosse possível, como uma boa dona de casa – funcionou bem por quase dez anos, mas sofreu o desgaste do próprio sucesso capitalista. Este só poderia avançar monopolizando para si próprio as oportunidades, o progresso e os governos. A face real do neoliberalismo destruiu muito rapidamente sua face ilusionista, desqualificando-o como instrumento eficaz de expansão do capital, em especial a partir do momento em que os povos começaram a rebelar-se.

Hoje, não são apenas os povos que querem livrar-se dele. O neoliberalismo tornou-se uma peça incômoda e descartável para o próprio capitalismo, que quer vê-lo substituído por uma terceira ou quarta via e faz de tudo para levar a esquerda a ajudá-lo nessa tarefa. Seu problema chave: que não se coloque a questão de substituir o capitalismo.

Concluir daí que o Fórum Social Mundial faz parte dos planos das agências de gestão financeira do capital não passa de um pobre exercício de maquiavelismo. Da mesma forma que não passa de ingenuidade supor que aquelas agências não tentaram participar e influir nesse fórum, como em outros, e mesmo nas grandes manifestações e revoltas. O capital sempre teve mecanismos para disputar, por fora e por dentro, o rumo dos movimentos que, a curto ou longo prazo, possam incidir sobre sua continuidade. E o centro de sua preocupação atual é manter a esquerda, e as grandes massas da população, nos limites da luta contra o neoliberalismo.

Isso não se deve apenas à ação ideológica e política do capital. Deve-se, também, às limitações da esquerda e às suas dificuldades para recompor seu poder social. Embora as análises sobre o capital atual tenham avançado muito nos anos recentes, elas ainda não foram popularizadas a ponto de criar uma percepção mais clara do capitalismo e de suas formas paramentais. Nesse sentido, o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em termos de participação plural, foi uma reprodução ampliada da I Internacional dos Trabalhadores, com a desvantagem de não haver produzido nada que pusesse a nu o capital em sua fase corporativa transnacional.

Nessas condições, o mais sensato é supor que parte da esquerda internacional apenas deu os primeiros passos para desvendar os véus de ilusão que encobrem o capitalismo. Enquanto ela e as grandes massas sublevadas, seja nas mobilizações massivas das barricadas de rua, como no Equador, Bolívia e Argentina, seja nas votações maciças, como na Venezuela e, em parte, no Brasil, ainda dirigirem o seu gume apenas contra o neoliberalismo, elas estarão fadadas a recair em outras formas de capitalismo e a repetir toda a miséria anterior. Assim, embora seja difícil dizer o que a esquerda deve fazer em cada país, talvez seja possível exigir que ela esclareça, pelo menos, sua posição diante do capitalismo, e não apenas de sua forma neoliberal.

No caso do Brasil, a esquerda vive uma situação particular. Em parte, porque o cansaço popular com o governo neoliberal alcançou um ponto insuportável; em parte porque esse cansaço só excepcionalmente tem se traduzido em mobilizações populares e, preferencialmente, tem se expressado em votações na oposição de esquerda. E em parte, ainda, porque a esquerda não definiu sua estratégia de luta contra o capital. Nessas condições, mantida a tendência atual, a esquerda pode chegar ao governo central em 2002 sem saber exatamente como enfrentar o domínio das grandes corporações transnacionais e como modificar os atuais parâmetros de acumulação e exploração capitalista. E, sem mexer nesses dois itens do capitalismo brasileiro, não haverá reversão de prioridades ou políticas de inclusão social que se sustentem ou tenham efeito positivo.

Aliás, basta avaliar o esforço que as administrações estaduais e municipais do PT têm realizado nesse sentido e seus resultados reais para comprovar os descompassos existentes. O orçamento participativo, a distribuição de cestas básicas e bolsas-escola e outras medidas tão necessárias têm tido efeito reduzido na resistência à ação destrutiva do capital sobre os operários, camponeses e outras camadas sociais. A maioria desses governos populares ainda não se deu conta de que políticas de inclusão social e reversão de prioridades só podem ter alguma efetividade se eles adotarem políticas de desenvolvimento que tenham como prioridade estratégica a reconstituição do poder ou da força social dos trabalhadores e das grandes camadas populares e intermediárias, em processo de fragmentação e desagregação pelo avanço capitalista.

Em outras palavras, enquanto os partidos de esquerda não tiverem como eixo estratégico a reconstituição do poder social da classe trabalhadora, tanto por meio da mobilização social de resistência contra o capital e suas políticas, quanto por políticas populares de desenvolvimento de seus governos, eles correrão o risco de perder-se no caminho de novas vias capitalistas sob a égide das grandes corporações empresariais.

Se pretendem mudar esse quadro, na possibilidade de conquistar o governo da República em 2002, terão que pensar num programa que inclua uma assembléia constituinte que desmonte o arcabouço jurídico montado pelo noliberalismo para garantir o predomínio do grande capital, e crie um outro arcabouço, que privilegie a economia popular das micro, pequenas e médias empresas, privadas e associativas, os mecanismos econômicos estatais e públicos, capazes de enfrentar as grandes corporações e apoiar a economia popular, e os múltiplos mecanismos de participação popular nas diversas esferas do poder público. O resto é complemento.

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