Pague o povo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Pague o povo, n. 269, 03 nov. 2001.

 

 

Apesar de tudo, não se pode negar falta de coerência ou de perseverança do governo FHC. Ocorra o que ocorrer, ele está sempre pronto a cumprir os compromissos com as grandes corporações nacionais e multinacionais, disposição cuja faceta mais visível reside em seus acordos com o Fundo Monetário Internacional, FMI.

Assim, apesar da crise econômica mundial, das notícias desencontradas sobre a oficialização da moratória argentina e do evidente desgaste governamental ante a opinião pública, FHC e sua equipe não modificam uma vírgula de suas políticas básicas, sempre na ânsia de obedecer ao que acertaram com o FMI e com os poderosos grupos econômicos.

Nos últimos dias, isso se mostrou em toda a sua crueza. Por um lado, na renegociação da dívida bilionária dos ruralistas com o governo. Por outro, na tentativa explícita da Receita Federal e dos ministérios da Fazenda e do Planejamento em impedir que o Congresso aprove a correção do Imposto de Renda. Sob a alegação de que a correção do IR em 35,29% causaria perda irreversível de arrecadação, dificultando o Orçamento de 2002 e o cumprimento do acordo com o FMI, as autoridades federais querem deixar tudo como está e estão pressionando os deputados governistas e boicotando qualquer acordo que beneficie os contribuintes de baixa renda.

Não aceitam sequer a proposta de compensar a suposta perda de arrecadação, estimada em R$ 5,3 bilhões, com a maior taxação sobre as rendas superioras a R$ 10 mil mensais, sobre as quais passaria a vigorar uma alíquota de 35%. Esta medida, segundo o ministro Martus Tavares, seria politicamente inviável, já que o governo teria dificuldade em determinar os beneficiados e quem pagaria a conta.

Politicamente viável para o grupo no poder é ter claro que os beneficiados sejam ruralistas, montadoras, empresas estrangeiras, lobbies empresariais e políticos, enfim, aqueles a quem o governo FHC serve com tenacidade. Tendo claro isso, a população de baixa renda, os assalariados, o povo que pague a conta.

Toda vez que até o bom senso político indica que os de alta renda devam pagar a conta, essa social-democracia picareta não se acanha em dizer que tal concessão aos pobres é politicamente inviável. Nem se preocupa com o fato de, ao mesmo tempo, estar perdoando a dívida de bilhões de segmentos de altíssima renda, como os ruralistas. Afinal, o FMI sabe que, ao fim e ao cabo, também essa conta será cobrada ao povo.

Aí já não se trata de insensibilidade social, ignorância sobre a real situação do povo brasileiro e outras desculpas com que alguns procuram explicar as políticas e medidas de FHC e dos seus ministros e conselheiros. Trata-se de uma política consciente e deliberada de espoliação dos trabalhadores e das classes médias. Só esquecem que estes podem pagar com uma moeda inesperada.

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