Outra vez o ludismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Outra vez o ludismo, n. 494, 08 abr. 2006.

 

 

Alguns leitores não gostaram das criticas ao ludismo. Segundo uns, não se poderia reduzir tudo à contradição entre a propriedade privada dos meios de produção e a produção social desses meios, já que a técnica e a ciência seriam desenvolvidas visando interesses de classe. Como o capitalismo tudo mercantiliza, a luta pelo socialismo deveria voltar-se, também, para a eliminação das tecnologias que servem apenas para fazer dinheiro.

Se levássemos ao pé da letra essas idéias, deveríamos nos voltar contra todos os meios de produção. Afinal, todas as tecnologias, e também as ciências, fazem parte desses meios, ou daquilo que também se chama forças produtivas. Sob o capitalismo, todas elas servem para fazer dinheiro. Por isso, para sermos coerentes com tais idéias, deveríamos nos voltar ainda contra os seres humanos, pelo menos contra aqueles que vendem sua força de trabalho nas fábricas, lojas, fazendas etc. Não esqueçamos que são eles os que mais contribuem para os capitalistas fazerem dinheiro, ao produzirem a mais valia e transformarem o capital em dinheiro novo valorizado.

Como vemos, um absurdo quase sempre gera outro. Para nos livrarmos deles, precisamos distinguir os meios de produção do uso que lhes é dado. Um trator tanto pode servir ao capital para destruir uma floresta, quanto servir ao povo para construir um açude, ou uma estrada. A questão que se coloca aí não é a aceitar ou não a tecnologia, mas de aceitar ou não seu uso explorador e destrutivo. Eis porque, faz muito tempo, os socialistas sabem que para resolver essa questão das tecnologias capitalistas, será preciso preservar as tecnologias e acabar com o capitalismo.

Por isso, toda vez que setores do povo se voltam contra as tecnologias, ao invés de lutar contra o capital eles prestam um desserviço à luta do próprio povo contra o capitalismo. Desviam suas energias contra algo que, mais tarde, a partir do momento em que o povo se torne proprietário social dos meios de produção, será utilizado em seu benefício.

Assim, ao invés de chocar a sociedade e fazê-la refletir, o que os atos ludistas fazem é confundir a sociedade sobre o inimigo verdadeiro. Oferecem a este a oportunidade de dividir essa sociedade e o movimento popular, e isolar e golpear não apenas um de seus setores, mas todo o movimento. É justamente isso que a experiência ludista do passado demonstrou e serviu como ensinamento histórico. E tal experiência de saber mirar sobre o inimigo verdadeiro não se cinge à tecnologia, ou é apenas teórica. Ela também serve para a estratégia e a tática política, por mais que alguns prefiram dissociá-la desses aspectos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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