Outra vez as alianças

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Outra vez as alianças, n. 290, 06 abr. 2002.

 

 

O problema das alianças é um velho problema histórico das esquerdas. Seus partidos sempre foram pendulares. Ora negavam-se a qualquer aliança. Ora aceitavam fazer alianças sem qualquer critério. E não foram raras as ocasiões em que, mesmo sendo contra as alianças, na prática foram obrigadas a fazê-las, explícita ou implicitamente, como na campanha das “Diretas Já”. E também não foram tão raros os momentos em que, mesmo desejando ou necessitando ardentemente realizar alianças, todos os esforços foram em vão e as esquerdas viram-se isoladas, apesar de sua vontade.

Parece que vivemos um desses momentos históricos. Há alguns anos, os partidos de esquerda vêm pregando a necessidade de fazer alianças, não apenas entre si, mas com setores de centro-esquerda e do centro do espectro político. Não pretendo aqui entrar no mérito da “justeza” ou não dessa pretensão. Apenas constatar o fato de que há anos existe uma política, predominante nas esquerdas, quanto à necessidade dessas alianças.

Não se pode negar que tenha havido persistência e empenho nesse rumo, principalmente por parte do PT. Isso, tanto do ponto de vista programático, quanto do ponto de vista de negociações e entendimentos com as forças situadas no espectro da esquerda para o centro. Não se pode esquecer, inclusive, que, até mesmo após 1994, o PSDB ainda era considerado, apesar de tudo, um partido situado à esquerda do centro. E que, com base em considerações desse tipo, Francisco Weffort e uma série de dirigentes do PT e de outros partidos de esquerda aderiram ao governo FHC e esforçaram-se em cooptar suas forças para “reforçar a esquerda do governo”, contra “as oligarquias do PFL”.

A maior parte da esquerda, felizmente, soube resistir a essa tentação e ganhou consciência de que o PSDB fazia parte do campo adversário e se tornara o principal inimigo. Tanto é que o arco de alianças do PT ficou nos limites das “forças em oposição a FHC”. É evidente que essa definição, como qualquer outra, carrega ambigüidades, podendo levar a disputas acaloradas, como a que ocorre em torno da aliança PT-PL. Ou como as que ocorreram sobre a aliança do PT com o PDT (considerado por alguns, durante a campanha de 89, como inimigo principal) e com o PMDB de Ulisses Guimarães. Ou como a que já ocorre na aliança PPS-PDT-PTB, de centro-esquerda, em torno do problema, novo e atual, de o PFL haver se colocado em oposição a FHC.

De qualquer modo, no PT parecia haver um certo consenso de que seu arco de alianças em torno de Lula deveria incluir, pelo menos, PSB, PV, PDT, PPS, PCdoB, PCB e PSTU, como base para a atração de setores políticos do centro. É partindo dessa premissa que talvez fosse útil uma certa reflexão sobre os resultados da inegável persistência para conformar tal arco de alianças. Por que, apesar de tudo, a esquerda se apresenta tão dividida e Lula arriscado a ficar isolado dos antigos aliados de centro-esquerda e sem poder de atração de aliados de centro?

Tal reflexão talvez ajudasse o PT a rever as condições reais em que vai travar a primeira grande batalha política do novo milênio, ao invés de achar que sua vontade pode sobrepor-se, seja pela esquerda ou pela direita, a tais condições.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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