Ousadia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ousadia, n. 389, 20 mar. 2004.

 

 

Virou moda exigir mais ousadia do governo Lula nas políticas de crescimento econômico e geração de emprego. Porém, com as exceções de praxe, as propostas de como realizar a ousadia são escassas.

Por exemplo: sabendo que uma das questões chaves para o crescimento reside no aumento substancial da taxa de investimento, alguns ministros têm sugerido que os empresários elevem suas inversões no setor produtivo, na construção civil e em outros setores da economia. O setor privado, no entanto, embora fale muito em redução da ingerência do Estado na economia, tem refugado e só se dispõe a investir… se o setor estatal garantir.

Em outras palavras, o empresariado privado só investirá se, paralelamente, o Estado investir pesadamente em infra-estrutura. Em tais condições, ousadia seria alguém sugerir que a maior parte do superávit primário fosse direcionada para elevar a taxa de investimento público. Por que o empresariado privado não tenta?

Outro exemplo: sabe-se que o crescimento econômico só será mais equilibrado e só terá capacidade de gerar empregos se a enorme massa que compõe a chamada economia informal, ou popular, ou clandestina, for incorporada à economia formal. Ou seja, se milhões de pequenas fabriquetas de quintal, ou focinhos de porco, ou outros nomes menos nobres, tiverem condições de desenvolver-se e multiplicar-se, absorvendo a maior parte dos desempregados e ampliando a oferta de bens baratos de consumo popular. Apesar disso, tem gente que só enxerga a geração do emprego através do crescimento da atual economia formal, o que será uma atroz desilusão.

Em tais condições, o cúmulo da ousadia seria sugerir que o governo suspendesse por uns dois anos todos os entraves burocráticos e tributos federais que pesam sobre as micro-empresas. Isso permitiria a emergência explosiva desse setor, dando um novo dinamismo à economia como um todo e permitindo reduzir substancialmente o desemprego.

A economia ganharia um novo impulso de expansão e o governo teria tempo de repensar uma nova política, mais flexível, de regulação e tributação do setor. Tudo de modo que os micros saíssem da informalidade ou clandestinidade e se transformassem num fator consolidado de desenvolvimento das forças produtivas e de absorção da força de trabalho deslocada das empresas de maior avanço tecnológico.

Certamente, há outras ousadias que poderiam ser propostas para ajudar o crescimento brasileiro. Mas essas duas talvez sejam o bastante, para começar.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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