Ou tuno ou nada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ou tuno ou nada, n. 468, 01 out. 2005.

 

 

Em política, o tudo ou nada é, em geral, igual a nada. Assim, quem esperava que o processo de eleição direta do PT representasse uma guinada de cento e oitenta graus certamente considera uma frustração que o campo majoritário tenha obtido 42% dos votos e o conjunto das forças de esquerda tenha conquistado apenas 58%. No entanto, para quem acha que entre o feijão e o sonho há uma travessia complexa de acumulação de forças e de novos embates, antes da batalha decisiva, as eleições internas do PT representaram um avanço significativo.

Significativo, em primeiro lugar, pela presença massiva da militância petista, há muito desprezada pelo campo majoritário como partícipe dos processos partidários de decisão. Não ter em conta essa participação, ou considerar que toda ela foi encabrestada pelo campo majoritário, ou serviu apenas de massa de manobra da antiga maioria, revela uma grande dose de miopia diante da realidade. Por mais que tenham existido irregularidades aqui e ali, essa não foi a tônica geral. E, ao que se saiba, 42% são menos do que 58%.

Significativo, em segundo lugar, porque o campo majoritário rachou e foi incapaz de manter sua hegemonia. Desdenhar as divisões internas no campo adversário, seja durante o primeiro turno das eleições internas, seja no segundo turno e no futuro, pode ser uma amostra de incapacidade de fazer política, no sentido estrito do termo.

Todos os que desprezam a tática, e pensam que a estratégia é uma vara de condão para todas as ocasiões, tendem a virar uma seita. E, como todas as seitas, podem balançar tanto para a esquerda, quanto para a direita. Basta ver a situação de alguns parlamentares que abandonaram o PT, criticando-o por suas alianças, e agora vivem de braços dados com o PFL e o PSDB. Ao ignorar que, em política, há momentos em que não existe terceira via, caíram nos braços da direita de fato.

Significativo, em terceiro lugar, porque a esquerda do PT tinha uma oportunidade valiosa de derrotar o campo majoritário no segundo turno, consolidar a nova correlação de forças conquistada no primeiro, e impor as mudanças políticas e organizativas que a militância petista e a situação do país exigem.

No entanto, parece que cumprindo a velha sina de que a esquerda não se une nem na dor, uma parte dela abandonou a lição, sob a alegação de que o campo majoritário ganhou e o PT acabou. Teria sido melhor, se era para ficar entre o tudo ou o nada, que tivesse feito isso antes das eleições internas. Ao menos, seria uma atitude de mais respeito democrático.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *