Os perigos de uma leitura incorreta

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Os perigos de uma leitura incorreta, n. 482, 14 jan. 2006.

 

 

Embora Lula reafirme que ainda não decidiu concorrer à reeleição, e que não haja qualquer decisão firme sobre outras candidaturas, ninguém duvida que a campanha eleitoral de 2006 já está em curso. Garotinho trabalha abertamente para ser ungido pelo PMDB. Alckmin já se declarou candidato a candidato pelo PSDB. E outros postulantes ensaiam passos e manobras, na expectativa de que o governo e o PT não consigam recuperar o seu prestígio e se transformem em cachorro morto.

Quanto a Lula, todos sabem que o governo ainda pode, em 2006, executar muitos de seus projetos de infra-estrutura, elevar as taxas de investimento produtivo, alcançar um crescimento do PIB e do emprego menos pífios do que o de 2005, elevar os investimentos sociais e reverter as atuais tendências de desgaste. O governo também pode minorar seus superávits primários exagerados, rebaixar os juros, executar políticas agrícolas e industriais mais definidas, acelerar os assentamentos rurais, reduzir os tributos e facilitar a vida dos pequenos produtores rurais e urbanos.

O perigo que o PT e o governo correm consiste em acreditar que basta enumerar e defender essas realizações para recuperar sua credibilidade diante das grandes massas populares e das classes médias. Ou que é suficiente demonstrar, através de números e fatos, que os pecados e delinqüências de alguns dirigentes do PT não se comparam, nem exagerando, com as delinqüências do PSDB e do PFL, e que o governo Lula foi, de longe, bem melhor do que o de FHC.

Talvez seja necessário um contato mais estreito com o povão que viaja nos ônibus, trens e barcas lotados, ou que anda quilômetros a pé para chegar ao trabalho, aquela maioria que votou massivamente em Lula e nos candidatos do PT, para saber a natureza desse perigo. Esse contato pode indicar a qualquer pesquisador mais atento que, para voltar a reconquistar a confiança dessa maioria popular, o PT e o governo Lula terão que fazer algo mais do que as realizações que estão em sua pauta de 2006.

Não se trata de nada material, de nenhuma obra monumental, de nenhuma bolsa família a mais, embora todas estas ações configurem um ambiente imprescindível. Trata-se de um gesto firme que aponte para uma mudança real na vida de milhões de brasileiros. Mesmo porque, apesar das ações positivas do governo, a situação social do Brasil beira o caos, e o simples fato de não reconhecer isso já é motivo para a desconfiança daqueles que a sofrem. Assim, apesar da disposição de dar uma virada em sua ação prática, o PT e o governo correm o risco de serem derrotados, se não lerem como devem o sentimento do povão.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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