Os desmemoriados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Os desmemoriados, n. 278, 12 jan. 2002.

 

 

No Brasil, como em outros países “emergentes”, criou-se uma classe de desmemoriados, composta de pessoas bem situadas no governo e no comando da economia pública e privada e nos meios de comunicação. Elas, invariavelmente, fazem projeções róseas sobre cada novo ano, mesmo que os números que apresentem para comprová-las sejam medíocres.

Quando o ano termina, elas apresentam uma lista de acontecimentos “imprevisíveis” ou “exógenos”, como o ataque terrorista a Nova York, ou a falta de chuvas nas cabeceiras dos reservatórios no Brasil, para explicar porque suas previsões não deram certo. Reafirmam impávidos que quem se enganou foram os “catastrofistas”, já que o ano não foi tão ruim como era proclamado por eles, e fazem novas projeções, varrendo delas e de sua memória qualquer possibilidade de novas surpresas.

Para esses desmemoriados, o bordão mais recente, para demonstrar que o Brasil vai e irá muito bem, é o de que nosso país teria se “descolado” da Argentina, estando portanto a salvo de qualquer contágio da tragédia que lá ocorre. E não faltam os que reiteram, como uma grande descoberta, que “somos diferentes”, que nosso modelo “é parecido, mas não igual”, já que nosso câmbio é flutuante, e por aí afora.

Nada falam, é lógico, do fato incontestável de dependermos como nunca, a exemplo de quase todos os “emergentes”, de recursos e fatores externos, para continuarmos funcionando. Ou seja, de que chegamos a um ponto de dependência em que os fatores “exógenos ou externos” atuam em nosso economia e sociedade como se internos fossem.

Portanto, dependemos da evolução da recessão norte-americana, dependemos da extensão e profundidade dessa recessão, dependemos dos desdobramentos da guerra contra o terrorismo, em especial dos desdobramentos da estratégia norte-americana, dependemos da evolução das moratórias turca e argentina, e dependemos, mais do que nunca, das estratégias das grandes corporações transnacionais. As chuvas deste verão podem encher os reservatórios de todas as hidrelétricas, mas isso só nos salvará de nova crise de energia se o governo se submeter às tarifas exigidas pelas corporações do setor ou adotar uma nova política energética que nos livre delas.

Apesar disso tudo, nossos desmemoriados não se cansam de repetir que bons ventos sopram neste início de ano. Segundo eles, “a economia global vai se recuperar”, “vamos trilhar caminhos convencionais”, “a queda no ‘risco soberano’ deverá permitir redução nos juros, maiores horizontes para o investimento privado, nacional e estrangeiro, e melhores perspectivas de crescimento”. Além disso, com o avanço da candidatura de Roseana, eles sonham que os radicalismos sejam, uma vez mais, rejeitados e não haja qualquer “ruptura com o atual modelo econômico”. Só não explicam como o “atual modelo econômico” vai evitar que nos transformemos numa grande Argentina.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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