Os democratas tucanos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Os democratas tucanos, n. 272, 24 nov. 2001.

 

 

Houve um tempo em que os tucanos ainda não eram aves, mas eram democratas. Eles lutaram – pelo menos grande parte deles – contra a ditadura militar e contra sua mania autoritária de governar por decreto.

Eles lutaram contra a subordinação ao FMI, a exemplo de Malan, da PUC-RJ, e contra a abertura indiscriminada da economia ao capital estrangeiro, a exemplo de Serra, da Cepal. Eles colocaram-se contra o arrocho salarial e contra a sanha repressiva e assassina do regime militar.

Eles denunciaram a subordinação dos poderes legislativo e judiciário ao poder executivo fardado, lutaram pela independência dos poderes e pela liberdade de opinião e organização política. Eles também se bateram pelo direito de sindicalização e de greve, inclusive dos funcionários públicos, e muitos deles foram para os portões das fábricas apoiar os metalúrgicos em greve, quando estes se lançaram à luta pela reposição salarial e, no curso desta, passaram a batalhar pelo fim da ditadura.

Ah, como eram democratas os tucanos enrustidos daquela época, então sob o guarda-chuva do Movimento Democrático Brasileiro! Mas como tudo na vida, nossos tucanos evoluíram. Eles romperam com o PMDB, segundo eles, enojados com a prática fisiológica da liderança desse partido. Ganharam plumagem própria, assumiram-se como tucanos para evitar falsidade ideológica, e proclamaram-se social-democratas. Na frente o social, tendo por base a democracia.

Quando todos esperavam que os tucanos cumprissem o que haviam proclamado, eles mostraram seu bico pragmático. Aprenderam rapidamente a curvar-se à política de resultados e quase se uniram a Collor, sendo salvos pelo resquício de hombridade que Covas ainda carregava. Sucumbiram, porém, ao PFL, na velha suposição de que, fora da antiga conciliação ou acordo entre as elites, não há possibilidade de chegar ao poder e realizar reformas no Brasil.

E assim, nossos democratas tucanos superaram tudo que se poderia pensar a seu respeito. Por longo tempo, governaram através de medidas provisórias. Subordinaram o país ao FMI. Abriram as comportas aos capitais multinacionais. Arrocharam os salários. Criaram uma massa enorme de desempregados. Através de práticas fisiológicas, subordinaram o legislativo ao executivo. E, por meio de ameaças veladas, querem subordinar também o judiciário. A lista é longa, mas o pacote anti-greve os fez superar-se.

Os saudosistas da ditadura militar devem estar invejando a capacidade dos democratas tucanos em rasgar a Constituição, infringir as leis, destruir direitos e continuarem a ser considerados democratas, apenas por não estarem utilizando a força explícita das armas. Devemos tirar o chapéu para eles? Ou nos envergonharmos por haver, em algum momento da vida, acreditado que eles eram democratas?

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