Os bafos da arca perdida

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Os bafos da arca perdida, n. 503, 10 jun. 2006.

 

 

Bastou que um grupo ultra-esquerdista realizasse uma provocação desnecessária no âmbito do Congresso Nacional para que as velhas e tenebrosas vozes do reacionarismo político se fizessem ouvir.

Muitos pensavam que elas haviam sido definitivamente enterradas, após estes quase 20 anos de democratização. No entanto, como bafos de uma arca perdida, elas continuam na espreita, e sempre prontas a aproveitar qualquer motivo para retomar suas práticas ditatoriais. Nesse sentido, é preciso agradecer ao senador Antonio Carlos Magalhães, por haver nos lembrado, com sua contumaz franqueza e seu apelo à intervenção militar contra o governo, de que elas estão apenas guardadas, mas desejosas de retornar.

ACM não fez esse pedido para solucionar a crise de segurança pública de São Paulo que, segundo o governador do estado e seu colega de PFL, representa a falência das elites. Nem para resolver os graves problemas estruturais do país. Ele quer a intervenção militar sob a alegação de que o presidente não respeita a Constituição, de que as Forças Armadas e seus comandantes não podem obedecer a um “subversivo”. E de que precisam reagir “enquanto é tempo”, “antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical presidida pelo homem mais corrupto que já chegou à presidência da República”.

Esse é um apelo direto e escrachado ao golpe militar. ACM foi buscar nas entranhas do ultrapassado golpe de 1964 os argumentos para justificá-lo. Apesar disso, não se deve supor que se trata apenas de um discurso isolado de um representante do reacionarismo mais retrógrado que o Brasil conhece. É preciso tomar na devida conta que as forças populares e democráticas encontram-se diante da expressão clara e sem disfarces de setores das classes dominantes, setores que não se conformam, de forma alguma, com a eleição de um presidente operário, representante de um partido de perfil socialista.

Diante da hipótese de serem novamente derrotados nas urnas, segundo as regras criadas por eles próprios, pretendem vencer pelo uso ilegal da força militar, como já fizeram tantas vezes na história brasileira. ACM é apenas sua voz, seu bafo quente e fétido. Será um engano fatal se as forças populares não entenderem isso e subestimarem o perigo. E se a ultra-esquerda continuar atirando no mesmo alvo, e dando pretextos para aventuras golpistas da direita.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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