Oposições

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Oposições, n. 117, 14 nov. 1998.

 

 

A oposição a FHC dentro do sistema ganha corpo. Antes, aparecia no PMDB, na candidatura Ciro e nas críticas, nem sempre veladas, de empresários e aliados do governo. Agora, explicita-se no apelo de Itamar para o PMDB virar oposição; nos empresários do outro lado do balcão; na nota técnica de José Serra; em Covas procurando a esquerda; e, até no estranho caso da chantagem, obra aparente da direita.

Com isso, ressurge a idéia da frente de centro-esquerda. Membros da esquerda reivindicam postos a Covas e Itamar, e sonham, outra vez, com o PSDB e parte do PMDB na esquerda. No entanto, enquanto Brizola aceita a hegemonia petista, Ciro nega-se a aceitá-la, alegando que o PT tem máquina, mas não tem idéias.

Na verdade, justificando-se com uma falsidade, Ciro deixa claro que, a oposição de que faz parte, não aceita justamente as idéias do PT. Mesmo porque, nenhum outro partido apresentou mais propostas e projetos para o Brasil do que o PT. A diferença está, pois, nas idéias.

A oposição que surge dentro do sistema quer continuar a política das elites, mas de outro modo. Não por acaso, mesmo falando mal do governo, o empresariado votou em peso na reeleição. Quis ganhar tempo e construir alternativas, tanto ao desastre FHC, quanto a Lula ou o PT. Apresenta-se como centro-esquerda porque é com a esquerda que tem que disputar a hegemonia.

Uma frente dessas duas oposições seria impensável? Não. Mas só há duas maneiras de construí-la. Na primeira, o PT abdica da idéia de suas reformas populares, assim como da cabeça de chapa. Ou seja, abdica da hegemonia. A frente se formará do dia para a noite.

Na outra, a esquerda utiliza sua participação parlamentar e em governos municipais e estaduais para implementar políticas de desenvolvimento econômico e social, em confronto com as políticas federais recessivas, e mobiliza as camadas populares contra FHC, criando uma poderosa força social e política. Neste caso, essa força funciona como um imã para atrair a oposição de dentro do sistema, mesmo que venha de dentes arreganhados.

Como a política governamental destrutiva empurra as camadas populares para a oposição a FHC, estreitando o campo para composições com o governo, a oposição de esquerda é obrigada a acompanhar esse movimento, tornando mais inflexível sua postura oposicionista. Mas o centro político também é arrastado no mesmo sentido, para disputar a hegemonia sobre aquelas camadas.

Nessas condições, o mais provável é uma competição dura da oposição surgida do sistema com o PT e a esquerda, mesmo acenando com a composição. As idéias e a hegemonia são o problema. O resultado, uma simples questão de força social e política. O resto, literatura.

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