Olhares enviesados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Olhares enviesados, n. 506, 01 jul. 2006.

 

 

É impressionante como uma parte da esquerda brasileira virou chorona. Esteve embolada com o tucanato e o pefelato nas denúncias da suposta corrupção sistêmica do governo Lula, supondo que isso sangraria o governo e o PT até a morte. Diante de uma realidade diferente, cai no desalento porque aquelas correntes políticas da burguesia se mostram incapazes de continuar batendo pesado no mesmo assunto.

Junto com o tucanato, essa mesma parcela da esquerda tentou demonstrar que o programa petista no governo era a continuidade escrachada do governo FHC. Como isso não é o que pensa a maior parte do povão, mesmo aquela parte que vai votar em Lula porque considera que ele é menos pior do que FHC, ela resvala no sonho salvador de uma promessa, sem base social. E acredita que, com sua presença carregada de voluntarismo, fará as eleições deste ano mudarem o rumo dos acontecimentos.

Não sabemos como um grupo, que nem sequer conseguiu dizer claramente sua proposta socialista, sua estratégia e suas táticas, terá condições de transformar as próximas eleições em algo novo e promissor, apesar de considerá-las parte de um jogo sujo, de cartas marcadas, que precisa ser extirpado. Mas isso pouco importa. Afinal, todo mundo tem o direito de sonhar. Como tem o direito de não concordar com o PT, nem com o que faz ou deixa de fazer o governo Lula.

No entanto, teremos o direito de olhar a realidade de forma enviesada e fazer o contrário do que afirmamos? Podemos nos comprometer a não fazer concessões na luta pelo socialismo, mas agora, na disputa eleitoral, advogar o capitalismo inclusivo, embora abominando isso no programa de Lula e do PT? Se é isso, o que distingue essa parte da esquerda do resto que ela critica como vendida, corrupta e outros qualificativos menos edificantes?

Em teoria, na esquerda brasileira, parecemos ter uma clivagem profunda entre os que lutam pelo socialismo e os que fingem lutar pelo socialismo, entre os que são portadores de uma nova ética e os que fingem empunhar a bandeira da ética, entre os que combatem desassombrados o modelo dominante e os que fingem realizar tal combate.

Na prática, o que estamos assistindo são as mesmas clivagens que racharam a esquerda no passado de nossa história. Rachas que ajudaram a direita a impor derrotas profundas à esquerda como um todo e a consolidar seu domínio. Sem aprender com o passado, muitos não conseguem olhar o presente de forma menos enviesada. Combatem o inimigo errado, como fizeram os ludistas do MST e os provocadores do MLST, e continuam fazendo os que colocam o PT, o PSDB e o PFL no mesmo campo. Confundem os aliados com os inimigos, e atiram nos primeiros pensando estar alvejando os segundos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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