Olha nós aí

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Olha nós aí, n. 191, 25 abr. 2000.

 

 

Pois é. A propaganda oficial bem que se esforçou para fazer dos 500 anos uma senhora peça publicitária das felicidades desta terra chamada Brasil. Dinheiro é que não faltou, nem mesmo para naus de pouco uso e para viagens nababescas. Nada parecia empanar os festejos em que FHC pretendia elevar-se a descobridor de novas potencialidades e desbravador da modernidade global brasileira.

Afinal, durante estes anos todos, criou-se aqui um outro povo, diferente tanto dos indígenas pré-colombianos, quanto dos africanos trazidos como escravos e dos europeus colonizadores, e erigiu-se uma sociedade e nação que, embora dependente, subdesenvolvida e, como diz o presidente, injusta, representa um salto em relação ao passado pré-histórico e colonial. E era a esse salto de progresso que ele queria se apegar para vender sua modernização capitalista como o futuro inevitável.

A ironia da história é que os índios renasceram. Embora dizimados por cinco séculos de holocausto, seus descendentes decidiram não só denunciar o massacre a que o descobrimento e a colonização os submeteram, mas também a aniquilação levada a cabo pela civilização capitalista. Mas não só os índios. Os negros querem discutir não só o holocausto negreiro, mas principalmente os mais de cem anos pós-abolição em que a maioria dos descendentes de escravos sofre com a nova escravidão burguesa, apesar do papo branco da miscigenação racial e da igualdade de direitos.

Pior (ou melhor, dependendo do ângulo), os descendentes pobres e miseráveis dos europeus que vieram para cá, desde meados do século XIX, como força de trabalho para a nova ordem capitalista em construção, e cujo sangue se misturou ao dos descendentes dos indígenas e africanos, também decidiram marcar presença, junto com os demais, para serem considerados parte do verdadeiro povo brasileiro, em vez de transformados cada vez mais no povo sem.

Diante da pompa e da encenação oficial passadista, os pobres e miseráveis quiseram dizer, mais do que tudo, Olha nós aí! Nós somos o futuro daquele passado e o presente da ordem dominante. Mas queremos um outro futuro para este presente e não estamos dispostos a sofrer o mesmo holocausto que nossos ancestrais.

É certo que não disseram exatamente isso, e o que disseram não foi com bons modos. Aliás, é nesses maus modos que se prendem o presidente, seus asseclas e também gente da esquerda, para desqualificar os protestos dos oprimidos. Para eles, a democracia só existe se os pobres e miseráveis tratarem os dominadores com luvas de pelica. E, embora façam apenas muxoxos diante das barbaridades cometidas todos os dias pela burguesia enfastiada, indignam-se quando aqueles, que sequer têm luvas, usam pedras como única maneira de fazer-se ver e ouvir. Na verdade, indignam-se e tremem.

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