Obrigado, Jean Ziegler!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Obrigado, Jean Ziegler!, n. 288, 23 mar. 2002.

 

 

O presidente FHC, segundo notícias de Santiago, no Chile, rebateu com rudeza as críticas do relator da Comissão de Direitos Humanos da ONU para Alimentação, Jean Ziegler, sobre a fome no Brasil. FHC simplesmente disse que Ziegler “mentiu”, ao afirmar que “25 milhões de pessoas não têm o que comer” no Brasil. “Uma irresponsabilidade”, clamou o presidente itinerante, assegurando estar interessado “em melhorar as necessidades de nutrição” dos brasileiros.

Na verdade, o governo FHC pensava que Ziegler iria se deixar embair por suas estatísticas fraudulentas, que continuam afirmando que a situação de pobreza no Brasil tem melhorado nos “últimos 8 anos”. Sua propaganda eleitoral, paga com o dinheiro das estatais, e sem que qualquer deputado ou instituição haja ainda ajuizado um processo de crime eleitoral ou publicidade enganosa, não tem pejo em vender essa falsa imagem para o Brasil e o mundo.

O suíço Ziegler, que teve a coragem de denunciar em sua própria terra os crimes da multinacional suíça Nestlé, não se deixou, porém, levar pela lábia do patrono de Serra, e destampou apenas uma parte da realidade brasileira. Embora sempre desinformado a respeito dos verdadeiros problemas dessa realidade, FHC e seu governo sabem que o próprio Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula que 22 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza.

Ou seja, a rigor, os números do relator da ONU até não discrepam muito dos dados oficiais. Ainda se mostraram moderados. Os que vivem o dia a dia da situação do povo brasileiro sabem que o quadro é pior do que o apontado por ele ou pelo Ipea. Assim, não foram os números que deixaram FHC furibundo. É quase certo ser outra a causa da irritação de FHC, que obrigou o Itamarati a emitir uma nota, onde “lamenta profundamente o tom pouco construtivo e a tônica desequilibrada das declarações do professor Ziegler”, ressaltando que tais declarações “põem em risco a objetividade de sua missão”.

O que o governo FHC não tolerou foi a afirmação de Ziegler de que o Brasil vive um quadro intolerável de desnutrição e de “guerra social”, apesar de produzir mais do que necessita para o consumo. Segundo Ziegler, “um terço da população brasileira é afetada pela subnutrição”, além conviver com “40 mil assassinatos por ano”. Para ele e para a ONU, “15 mil mortos por ano são indicador de guerra” e, no Brasil, “onde há terra fértil, riqueza e um clima tropical, a fome é um genocídio, não uma fatalidade”.

Só faltou dizer que a desnutrição, o “indicador de guerra” e o genocídio existentes no Brasil são a culminância de uma sucessão de governos, que tiveram em FHC a expressão maior da insensibilidade e da irresponsabilidade com que as oligarquias trataram e tratam o povo brasileiro. Obrigado, Jean Ziegler, por confirmar aquilo que muitos brasileiros vêm denunciando há tempo, sem que FHC se digne irritar-se por considerá-los “fracassomaníacos”.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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