Obrigado, FHC!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Obrigado, FHC!, n. 517, 19 set. 2006.

 

 

Sou daqueles que agradecem a FHC por sua carta desabafo. Primeiro, por admitir a possível derrota da aliança anti-PT, causando atritos no tucanato, pouco afeito a esse tipo de critica pública. Segundo, e principalmente, por repelir qualquer semelhança com Lula, jogar uma ducha fria nas especulações sobre uma concertação geral para a governabilidade de um segundo mandato de Lula, e colocar a nu a estratégia da direita daqui para frente.

Não acho que FHC tenha feito autocrítica. Não fez isso em relação ao PSDB, quando diz que não foi firme na denúncia do que chama “descalabro”, ou que tapou o sol com a peneira no caso Eduardo Azeredo. E muito menos quando diz que seu governo deve ser defendido, e o PSDB não deve ter vergonha de haver privatizado.

Não é nisso que agradecemos a FHC. Nem por fazer ataques ao PT e a Lula por um descalabro que é dele e, bem ou mal, começou a ser desmontado no governo Lula. Seria demais pedir a FHC que aceitasse o fato de que, durante o governo Lula, todos os acusados de irregularidades, reais ou fictícias, foram afastados do governo, e também da direção do PT, enquanto no governo do PSDB-PFL as coisas foram diferentes.

Embora tenha gritado “pega ladrão”, para desviar as denúncias contra si, FHC merece o agradecimento por haver reconhecido que é acusado de “privataria”. Fruto da capacidade brasileira de criar termos para novos fenômenos, “privataria” cai como luva para definir as privatizações escusas, fraudulentas e criminosas do seu governo. Nessas condições, mesmo que Alckmin fosse o “candidato mãos limpas” que FHC alega que é, ele jamais poderia bradar e isso e fazer o contraponto a Lula, porque tem o flanco sujo pela privataria.

Assim, agradecemos a FHC por assumir que o PSDB deve ter a política de privatizações como marca do estilo tucano para o futuro. E por haver explicitado que seu partido deve batalhar para provar que “Lula é passível de crime de responsabilidade”. Isso tira qualquer ilusão sobre uma possível reciclagem social-democrata do PSDB, e sobre sua suposta natureza democrática.

Por um lado, firma o caráter direitista e conservador do PSDB, a serviço da “modernização” ultraliberal das corporações transnacionais. O que pode levar alguns tucanos verdadeiramente social-democratas e democratas a descobrirem em que ninho realmente se encontram. Por outro, esvazia as bolhas ilusórias de alguns petistas que pensavam refazer seu sonho de união com o PSDB, desconhecendo a transformação desse partido. Portanto, mais uma vez, obrigado FHC!

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *