O xis do problema

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O xis do problema, n. 248, 09 jun. 2001.

 

 

O governo resolveu travar uma guerra para derrubar as decisões judiciais contra seus planos de racionamento. Seus argumentos são: a) sem racionamento, haverá apagão, o que seria muito pior para todos; b) há muito desperdício; c) não há maneira de excluir quem quer que seja dos dissabores dessas medidas; d) todas as medidas são constitucionais; e, e) é uma questão de patriotismo, para tirar o país da crise.

O governo se utiliza, assim, de meias verdades e de inverdades para justificar-se. É verdade que o racionamento tornou-se inevitável, os apagões podem ser piores do que o racionamento, há muito desperdício e é preciso tirar o país da crise. No entanto, racionamento se tornou inevitável como conseqüência das políticas adotadas por FHC e sua equipe, embora estivessem alertados há muito sobre tal perigo. Eles deveriam ser obrigados a pagar pessoalmente pela irresponsabilidade praticada.

O desperdício, por sua vez, é praticado por quem pode, e não por quem ganha salário mínimo ou um pouco mais. Portanto, a penalização de todos com corte de 20% no consumo sacrifica muito mais os mais pobres, que não desperdiçam, do que os mais ricos, que desperdiçam. As cotas de sacrifício estipuladas pelo governo são desproporcionais, injustas e discriminatórias.

Por outro lado, não é verdade que as medidas adotadas pelo governo sejam constitucionais. Ao contrário, querendo aproveitar-se da crise para agredir os direitos dos trabalhadores e dos pobres, o governo procura decretar medidas que ferem diretamente a Constituição e não podem ser aceitas, a não ser que aceitemos o fascismo.

Também não é verdade que o plano emergencial do governo seja uma questão de patriotismo. Primeiro, porque esse plano vai afundar ainda mais o país na quebradeira que vem insistindo em não reconhecer. Segundo, porque, para tirar o país do buraco em que está sendo jogado, será necessário manejar o racionamento de modo a evitar cortes brutais na produção dos bens essenciais e estratégicos e o aumento do desemprego, além de impedir que a crise seja aproveitada para impor um grande tarifaço à população, como forma de facilitar os investimentos das multinacionais na área de geração e transmissão.

O patriotismo para tirar o país da crise começa com a medida de transferir para investimentos em energia e produção os bilhões de dólares a serem pagos para o serviço da dívida externa. Esse é o xis do problema, que o governo teima em esconder com seu plano de racionamento, que nos conduzirá não só ao apagão elétrico, mas ao apagão geral.

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