O voluntarismo na política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O voluntarismo na política, n. 421, 30 out. 2004.

 

 

O voluntarismo político é uma doença que ataca a direita e a esquerda. Collor e FHC são exemplos de voluntarismo político de direita. A esquerda, por seu turno, possui um vasto rol de experiências e sofrimentos de partidos, dirigentes e, mesmo, de militantes, causados pelo voluntarismo. Apesar disso, ainda há os que não acreditam em seus sintomas, nem em suas conseqüências, e se consideram imunes.

O voluntarismo político costuma atacar em momentos de descenso da mobilização social. Ou, como se dizia em tempos não muito remotos, de descenso revolucionário. É nessas ocasiões que emerge o desejo de fazer com que o movimento popular rompa com suas vacilações, saia às ruas, pressione o governo (qualquer que seja), esbraveje, lute, golpeie os inimigos, os encurrale e faça valer os seus direitos e expectativas. Esse é um desejo sincero e legítimo de todos que têm compromisso com as aspirações populares.

No entanto, quando se tenta transformar esse desejo em realidade pela ação de grupo, temos a irrupção do voluntarismo político. Ou a suposição de que a clarividência, tornada discurso, atividade e empenho, pode colocar as massas populares em movimento. Para o voluntarismo político, deixa de existir o ritmo das próprias massas populares. Elas estariam vacilantes, ou paralisadas, por culpa de dirigentes, na melhor das hipóteses, oportunistas.

Quando o movimento popular não se mexe, apesar dos apelos à luta e dos ataques aos oportunistas, o voluntarismo político contenta-se em dizer que fez um alerta e continuará cutucando o inimigo para que este reprima as massas e as faça reconhecê-lo como tal. Ou seja, o voluntarismo torna-se masoquista, acreditando que as camadas populares aprendem através do sadismo das elites.

As classes e camadas populares têm seu próprio movimento e ritmo de aprendizado. Aprendem com sua luta, por mais que tenhamos dificuldade em reconhecer as formas quase imperceptíveis, por meio das quais essa luta e aquele aprendizado se processam e se acumulam. E essa luta e esse aprendizado só irrompem em grandes mobilizações sociais quando as massas se convencem, por sua própria experiência, que não querem mais continuar vivendo como até então.

Até aí, se os que se acham possuidores da clarividência não querem resvalar no voluntarismo político, o que lhes resta é sintonizar-se com o nível de luta existente, criando raízes e ganhando legitimidade, não no movimento idealizado, mas no movimento real.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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