O tapuia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O tapuia, n. 150, 10 jul. 1999.

 

 

Afinal, qual é o problema da esquerda? Falta de propostas viáveis e diálogo construtivo? A mídia e os partidos no poder não se cansam de divulgar que falta isso à esquerda: propostas e diálogo. E, na esquerda, também aparece quem repita a mesma coisa: ela não se credenciaria para o poder justamente por não apresentar propostas viáveis e não estar aberta ao diálogo.

Apesar disso, jamais vi no Brasil uma esquerda tão pródiga em propostas e abertura ao diálogo. Algumas propostas, inclusive, são de um detalhismo técnico digno de nota. E a abertura ao diálogo, às vezes, chega ao ponto de preterir aliados para dar atenção a figuras como Antonio Ermírio de Moraes e assemelhados.

Nada contra propostas e diálogos. Elas são necessárias na luta política, até mesmo entre os inimigos. A propósito disso, porém, vale a pena relembrar a história de Irakitã, tuxáua tapuia do litoral sudeste, que decidiu negociar com os portugueses em meados de 1500. Para ele, todos eram seres humanos e não havia porque guerrear.

Decidiu, pois, dialogar e propor um acordo. Os tapuias ficariam com os campos e as matas de caça, sua reserva ancestral, e os portugueses podiam aportar no litoral e fazer o escambo das suas riquezas com a madeira cortada pelos tapuias. Tudo na paz e amizade.

Os lusitanos, já embalados no projeto da colonização, disseram que aquilo não era proposta nem diálogo. Os tapuias deviam abrir seus campos e matas, entregar suas armas e servir aos novos senhores com docilidade. Em troca, seriam catequizados e suas almas iriam para o céu, quando morressem.

O tapuia, a contragosto, deu-se conta de que estava diante de seres de outra natureza. Um bando que desejava levar não apenas a alma de seu povo, mas os campos sagrados de sua sobrevivência e de seus mortos. Diante de um inimigo desse tipo, a morte viria entregando-se ou lutando. O tapuia preferiu lutar, embora esse gesto seja considerado, pela propaganda oficial dos 500 anos de descobrimento, como bobagem de bárbaro.

De qualquer modo, talvez devêssemos nos lembrar dessa história simples ao enfrentar o bando encastelado no poder da República, a não ser que ainda tenhamos ilusões em suas intenções sociais e patrióticas. Esse bando quer liqüidar o povo e a nação brasileira e só fala em negociar com a esquerda porque ainda não tem força para destruí-la.

Se nossas propostas e diálogos com tal inimigo não levarem em conta essa verdade comezinha, teremos um fim pior do que o do tapuia. Além da morte, carregaremos a desonra de não haver resistido num momento em que, ao contrário dos tapuias frente aos colonizadores, a força social dos brasileiros é maior do que a do bando no poder.

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