O retorno dos cortadores de cabeça

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O retorno dos cortadores de cabeça, n. 280, 26 jan. 2002.

 

 

O seqüestro e assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, coloca seu partido, toda a esquerda e demais forças democráticas do país diante do possível retorno da terrível prática do corte de cabeças. Essa sempre foi uma pervertida tradição das classes dominantes brasileiras, diante de seus opositores, especialmente aqueles oriundos das camadas populares.

Durante séculos, além de uma prática comum dos senhores de terras e potentados urbanos, essa foi uma política patrocinada pelo Estado. O absolutismo português costumava esquartejar seus desafetos, como fez com Felipe dos Santos e Tiradentes. O Império queimava em cal ou fuzilava os líderes das revoltas populares. A República Velha literalmente degolava a cabeça dos insurretos, fossem políticos, messiânicos ou bandoleiros. A ditadura Vargas eliminava os opositores na tortura e também degolou messiânicos e bandoleiros. A ditadura militar pós-64 se esmerou em realizar a eliminação seletiva de lideranças políticas, assassinando-as na tortura e, em relação a seus corpos, apresentando-os como quedas em combate, ou simplesmente desaparecendo com eles.

Nos anos mais recentes, de relativa democratização, as classes dominantes vêm praticando uma eliminação diversificada e aparentemente espontânea de militantes e lideranças populares, tanto sociais quanto políticas. São inúmeros os líderes camponeses que tombaram nos últimos anos. Também não são poucos os líderes políticos, em particular do PT, que viram suas vidas roubadas por defenderem causas populares e democráticas.

Entretanto, desde o final de 2001, ocorrências seqüenciais que incluem cartas ameaçadoras de uma organização paramilitar, o assassinato do prefeito Toninho, de Campinas, atentados contra vários prefeitos petistas e, agora, o seqüestro e assassinato de Celso Daniel representam uma escalada de novo tipo contra as lideranças desse partido, cujas perspectivas de chegar ao poder são as mais positivas de sua história. O tipo de operação e de armamento utilizados para deter e eliminar o prefeito de Santo André indicam a utilização de profissionais do ramo e apontam para a possibilidade de um pacto sinistro entre setores das classes dominantes e o crime organizado para levar a cabo a eliminação de líderes petistas e populares.

Ao assassinar o prefeito de uma das cidades-berço do PT e coordenador do programa de governo desse partido para as eleições do 2002, aqueles setores quiseram transmitir um recado mafioso explícito para desestabilizar a militância e a liderança do PT. Nessas condições, esse partido, a esquerda e todas as demais forças democráticas brasileiras terão que levar em conta que os cortadores de cabeça estão de volta, numa situação em que o Estado nacional, desaparelhado e minado por grupos corrompidos de toda ordem, sequer consegue enfrentar a violência criminosa.

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