O remédio do Real

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O remédio do Real, n. 405, 10 jul. 2004.

 

 

Os pais, irmãos e amigos do Real, inventado em 1994 para debelar a inflação, reorganizar a economia e permitir um crescimento sustentado, comemoraram com pompa os dez anos de sua existência. Não faltaram loas, até mesmo de parcelas da esquerda, à sua eficácia no combate à inflação – como não faltaram explicações pouco convincentes sobre sua ineficácia para promover o crescimento. O ex-presidente FHC chegou a afirmar, sem qualquer pudor, que “combater a inflação” era o único objetivo do Real.

Mas, que maestria existe em reduzir a inflação através da recessão, da quebra de grande parte das empresas do parque produtivo, da desnacionalização econômica, do aumento desmesurado da economia clandestina e do desemprego? Isso, qualquer economista de terceira categoria é capaz de fazer, bastando ser insensível aos interesses do país e de seu povo. O que interessava em 1994, e continua interessando agora, é: como manter a inflação em baixos patamares e, ao mesmo tempo, realizar o crescimento, recuperar o parque produtivo, reduzir substancialmente o desemprego e melhorar a distribuição da renda.

Na verdade, o Real não veio apenas para controlar a inflação. Veio acompanhado de uma série de mecanismos macroeconômicos (juros, câmbio, superávits primários, privatizações, contingenciamentos etc) destinados a garantir o equilíbrio fiscal e financeiro. Tudo na suposição de que isto é essencial para pagar a dívida brasileira, garantir a entrada de novos capitais externos e, com o tempo, melhorar substancialmente a relação entre o total da dívida e o PIB. Até seria possível compreender uma tentativa desse tipo se o sacrifício necessário fosse repartido proporcionalmente pelo conjunto da sociedade brasileira.

Porém, nos oito anos do reinado de FHC, a fugaz melhoria de renda nominal das camadas mais pobres se esvaiu como nuvem rala, soprada pelo aumento do desemprego e pela queda da renda real, enquanto os bancos, os demais agentes do sistema financeiro e algumas grandes corporações empresariais apresentaram lucros indecorosos. Cerca de 500 empresas foram muito bem, obrigado, enquanto as classes médias e os trabalhadores amargaram o gosto do empobrecimento e da desagregação social.

Infelizmente, esse paradoxo continua, na ilusão de que será possível superá-lo através do gerenciamento inteligente. A dívida aumentou; a relação dívida/PIB permanece em patamar elevado; quem está crescendo são as empresas de sempre (que quase não geram emprego); o desemprego foi reduzido um pouco, mas o poder aquisitivo caiu. E os lucros das 500 grandes ficaram mais indecorosos. Com isso, o povo brasileiro está naquela condição do paciente, cujo médico lhe assegura a eficácia de seu remédio e garante que, se morrer, certamente morrerá bem melhor.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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