O recado das urnas e da mídia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O recado das urnas e da mídia; n. 113, 17 out. 1998.

 

 

A mídia não se contenta em apoiar a política dominante. Nem se envergonha por haver divulgado, como verdades inarredáveis, pesquisas de voto para influir eleitores. Sequer se ruboriza com sua ação sincronizada para mergulhar as camadas populares no turbilhão das notícias de seus dramas cotidianos, para impedi-las de enxergar sua gravidade e suas causas.

Com despudorada parcialidade, ela agora pretende passar-se por neutra e conselheira da oposição. Mesmo ainda confusa diante do crescimento parlamentar evidente desta, no qual não acreditava, acha-se no direito de interpretar o recado que as urnas enviaram a FHC, à esquerda, e ao PT em particular. E dar à oposição lições de comportamento.

Segundo ela, na esquerda venceu quem sabe dialogar e apresentar alternativas. Uma oposição que não paralisa as votações do Congresso por se tratarem de projetos ou reformas propostos pelo governo. Que se opõe ao governo procurando o melhor para o país, ao contrário dos radicais que querem vê-lo pegar fogo, ou afundar na crise, para demonstrar que têm razão.

A crer nessa interpretação, não há sinais nem recados trocados. O eleitorado que deu a vitória a FHC teria sido o mesmo que propiciou o crescimento da oposição moderada, para garantir um diálogo construtivo em prol do país. Ela coincide com a atitude marota de FHC, convidando Lula para uma conversa e prometendo uma mudança de rumo na política recessiva.

Foi ouvindo esse canto que a esquerda custou demais a funcionar como oposição. Procurou melhorar as reformas, acreditando serem por um Brasil melhor. Pisou macio no governo, para não assustar o eleitorado do Real. Criticou sua política em voz baixa e sussurrou que ia dar em crise, para não parecer fracassomaníaca. Só gritou quando a crise explodiu. Mas aí o barulho desta já era mais alto do que sua voz.

Por tudo isso, a esquerda talvez deva evitar a interpretação fácil de conselheiros tão escusos e procurar uma interpretação mais precisa dos inúmeros sinais trocados desta eleição. Num quadro de crise como o atual, quando o povo dá um voto de confiança em quem o está esfolando e em quem se opõe moderadamente a isso, ele pode simplesmente estar dando a última chance a ambos os lados para encontrarem uma solução diferente. A história está cheia de situações idênticas. Se for isso, o recado é mais complicado do que parece, tanto para FHC e os moderados, quanto para os radicais.

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