O que quer FHC?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O que quer FHC?, n. 266, 13 out. 2001.

 

 

O que quer FHC ao dizer que o Brasil não está livre de um ataque terrorista e, por isso, ele apóia os bombardeios norte-americanos contra o Afeganistão? Isto é o mínimo que se pode perguntar, ao assistir ao presidente aproveitando-se do momento em que os Estados Unidos, invocando o direito de auto-defesa, colocam sua máquina de guerra, e a inglesa, para destruir a infra-estrutura física daquele país, como primeiro passo para a caça a Bin Laden.

Após quase um mês de demarches de todo tipo, os governos Bush e Blair decidiram combater o terrorismo fundamentalista espalhando chumbo e fogo para todo lado. Primeiro sobre os afegãos, que devem estar se perguntando que alvos militares importantes existem em seu território para serem atingidos por foguetes e bombas inteligentes. Depois, conforme Bush já prometeu em carta ameaçadora ao Conselho de Segurança da ONU, sobre outros países em que existam organizações terroristas.

Na luta contra estas, que existem também dentro dos Estados Unidos, é preciso reconhecer que a força é um componente importante. No entanto, ao contrário do que Bush está praticando, não é o mais importante. O decisivo para debelar o terror é a ação política. No caso específico do terror fundamentalista, a ação política para solucionar o problema palestino e construir novas relações com o mundo muçulmano. Sem isso, será muito difícil isolar e destruir as organizações terroristas que hoje apóiam Bin Laden. O Império americano não pensa, porém, em seguir esse caminho. Prefere ter os mísseis e o poderio bélico como o início e o fim de tudo.

Pode até matar Bin Laden e destruir os talebans e o Afeganistão, mas com isso certamente não liquidará o terrorismo. E, mais adiante, talvez tenha que se haver com algumas de suas alianças de momento, como as máfias afegãs e russas do ópio, da heroína e do contrabando de armas, utilizadas agora como combatentes da cruzada infinita, da mesma forma que Bin Laden foi um combatente da liberdade em passado não muito remoto.

Bush pelo menos tem alguma explicação para desencadear seu terrorismo de Estado. Afinal, os ataques a Nova York e Washington, matando milhares de inocentes, não têm qualquer justificativa e são passíveis de serem tomados como pretextos legítimos para retaliações tão bárbaras quanto as ações praticadas pelos terroristas. Mas que explicação tem o presidente brasileiro para apoiar incondicionalmente a ação norte-americana e apelar para uma união, sob a alegação de que os conflitos externos exigem uma unidade interna?

É evidente que FHC procura tirar proveito do conflito infinito desencadeado pelo Império americano, com o fito de assumir uma posição de liderança que não mais tem. Sem qualquer posição clara e firme quanto à forma adequada de combater o terrorismo, quer colocar o Brasil totalmente caudatário da política guerreira de Bush e Blair, supondo que isso lhe trará o prestígio perdido. Sequer avalia que o povo brasileiro distingue a solidariedade ao povo americano da solidariedade, que não devota, ao Império do norte. Mas, sem dúvida, seria demais pedir que fizesse essa distinção a um grupo que sequer consegue, numa lista de cinco pessoas, comprovar a veracidade dos que estão realmente mortos e dos que permanecem vivos.

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