O que quer a esquerda?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O que quer a esquerda?, n. 181, s/d.

 

 

Construir a unidade nos principais centros urbanos e no país tornou-se um imperativo político para a esquerda. Algumas de suas correntes vão até mais longe, sugerindo trazer o centro para essa unidade. Apesar disso, seu difundido atavismo de desunião parece cada vez mais presente para as eleições municipais de 2000, com um feroz cada um por si.

É verdade que a esquerda necessita adequar sua tática política às novas tendências conjunturais: recuperação dos índices de popularidade de FHC, controle da variável cambial e da inflação, superávits primários, controle nas contas públicas, bloqueio das denúncias de corrupção, mudança de expectativas em relação ao desempenho da economia, com a possível retomada do crescimento, e provável superação das dissidências na base governista, tendências que pareciam esgotadas em 1999.

Por outro lado, também é verdade que as altas taxas de juros inibem uma forte retomada de investimentos, que um crescimento entre 3% e 4% será insuficiente para resolver o desemprego e que a perda do poder aquisitivo dos salários vem se aprofundando desde antes da desvalorização cambial, havendo se agravado com esta. Do mesmo modo que o câmbio brasileiro depende da saúde econômica dos EUA, os superávits primários da capacidade do governo sugar o sangue e o tutano dos pobres e das classes médias, as contas públicas e a unidade da base governista da maior ou menor disputa pelo poder e da divisão oligárquica do dinheiro público e a impunidade da corrupção da capacidade do governo mentir e enganar a todos o tempo todo.

Assim, não parece haver dúvidas entre a esquerda de que os embates táticos entre a oposição e o governo se darão em torno dessas questões de ordem nacional, tendo por base a disputa estratégica de alternativas distintas para o país. Desemprego, salários, questão social, violência urbana, falência dos serviços públicos (privatizados ou não), autoritarismo e desnacionalização da economia permanecem temas centrais da agenda política.

Além disso, também não há dúvida de que a derrota da oposição nas eleições municipais dos principais centros populacionais do país indicaria uma importante tendência continuísta para 2002. Porém, mesmo reconhecendo esse papel estratégico das eleições municipais para a batalha entre oposição e governo em 2002, o que lhe dá um implícito conteúdo plebiscitário, boa parte dessa mesma esquerda considera que tais eleições não serão explicitamente plebiscitárias, de julgamento do governo. Somente as temáticas locais da crise urbana e dos problemas sociais polarizariam as disputas.

Em outras palavras, a esquerda abandona os esforços de potencialização dos fatores de unificação nacional, de desmascaramento das políticas do governo central (não só as econômicas), de demonstração da impossibilidade do poder central inverter as expectativas para a maioria do povo brasileiro e de explicitação do caráter plebiscitário das eleições municipais, preferindo dar ênfase à dispersão e ao localismo. Em tais condições, como unificar-se (e atrair o centro)?

Se as temáticas municipais se tornarem o centro da tática eleitoral da esquerda em 2000, será mais fácil que se dispersem ainda mais (como aliás já vem acontecendo), e localmente se aliem a forças políticas nacionalmente adversárias de suas alternativas estratégicas e táticas (como aliás já tem acontecido). Afinal, o que quer a esquerda?

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