O que exigir do novo governo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O que exigir do novo governo, n. 524, 04 nov. 2006.

 

 

A maior parte da esquerda votou em Lula. Seja por concordar com as políticas levadas a cabo por ele, mesmo que discordando de vários aspectos dela, ou seja por não concordar com ele, mas para impedir o retrocesso que representaria o sucesso eleitoral da direita. Porém, uma parte da esquerda considerou que a vitória de Alckmin ou de Lula representaria a mesma coisa, não diferenciou um ou outro, e anulou seu voto.

Em outras palavras, a esquerda continua apresentando divisões em torno da tática, como conseqüência da existência de profundas divisões em torno da estratégia. Fenômeno recorrente, associado a isso, consiste em que uma parte da esquerda considera-se legítima, avaliando que as demais já se passaram para o inimigo, e não mais representam os interesses dos trabalhadores. O que cria ainda mais dificuldades para uma discussão com mais conteúdo e menos adjetivos.

Assim, embora a questão de votar ou não em Lula esteja superada pelos fatos, a questão de unificar a esquerda diante do que exigir do novo governo continua em aberto. Nesse sentido, o que exigir em relação às políticas de soberania nacional, democratização da propriedade (reforma agrária e apoio ao capitalismo democrático, urbano e rural), democratização política, geração de empregos, privatizações, atração de investimentos estrangeiros, endividamento público, previdência social, direitos trabalhistas, e outras políticas econômicas e sociais, se a própria esquerda não tem consenso básico sobre elas?

Por exemplo, na política externa, há setores que preferem que Lula cutuque com vara curta o imperialismo norte-americano, à la Chávez, ao invés de praticar uma política de cooperação soberana com o império do norte, ao mesmo tempo em que implementa a cooperação estratégica com os países sul-americanos e fortalece a união entre eles, acumulando forças. Para aqueles setores de esquerda, a atual política externa é de subserviência, enquanto para outros setores é soberana e taticamente correta.

Outro exemplo: há setores que querem reverter as privatizações dos governos Collor e FHC, e até mesmo ingressar num processo geral de estatização. Para eles, qualquer política que permita o crescimento de capitais privados, como as Parcerias Público-Privadas, é privatista e anti-socialista. Para outros, vale mais a pena fortalecer as estatais existentes, ajudar a expansão e fortalecimento do capitalismo democrático (micros e pequenas empresas urbanas e rurais), atrair capitais privados, nacionais e estrangeiros, para desenvolver as forças produtivas do país, ainda relativamente fracas, e utilizar políticas macroeconômicas para corrigir os desvios de mercado.

Sem discutir essas questões com as mentes abertas, e encontrar seus pontos de consenso, será difícil a esquerda exigir algo concreto e unificado do novo governo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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