O que está em jogo?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O que está em jogo?, n. 120, 05 dez. 1998.

 

 

Se antes poderia haver dúvidas quanto à realidade e profundidade da guerra intestina que grassa entre os de cima, levando à demissão de Mendonça de Barros e companhia, agora não há mais possibilidade de engano. ACM encarregou-se, como é seu feitio, de colocar as coisas no devido lugar, delimitar os campos e estabelecer as regras da disputa.

O pivô da guerra são os recursos públicos, gerenciados pelo BNDES e fundos de pensão das estatais, o que inclui recursos que pertencem aos trabalhadores, como o FAT e o FGTS. A discórdia não gira em torno do direcionamento de tais recursos para atividades produtivas, geradoras de empregos e serviços sociais, ao invés de financiarem grupos estrangeiros e nacionais na compra de estatais. Gira em torno dos grupos que devem ser privilegiados ou, ao contrário, bigodeados, no acesso a tais financiamentos.

A ala do ministro Serra, aparentemente perdedora neste primeiro round, tem procurado fazer crer que o pivô da briga é o ministério da Produção, cujo objetivo seria implantar uma linha desenvolvimentista, em contraposição à linha recessiva da ala Malan-Franco, apoiada por ACM.

Entretanto, pelas ações e conversas telefônicas de Mendonça de Barros, ficou evidenciado que não é nada disso. O que realmente está em jogo, para ambas as alas e seus apoiadores políticos, é o interesse exclusivista de alguns conglomerados financeiros-industriais-comerciais contra os de outros conglomerados idênticos. O resto é marketing para conquistar apoios desavisados e abocanhar novas parcelas do poder, instrumentos de materialização de tais interesses.

ACM sabe disso, verbalizou o que estava em jogo, colocou FHC contra a parede e já mostrou sua força, ao levar o governo à derrota na votação da MP da previdência. Na guerra dos de cima, realmente vale tudo.

Espera-se que a esquerda entenda o que está mesmo em jogo. Com isso, terá mais facilidade para colocar mais lenha na fogueira, para intensificar a disputa no campo do adversário e fazer com que suas próprias alas tragam à luz suas falcatruas e interesses. E, mais ainda, poderá esforçar-se para que os de baixo, os principais prejudicados pela política implantada por FHC, comecem a se mobilizar por emprego, terra, salário, moradia e outras reivindicações vitais. Só assim correrá menos perigo de cair na tentação de apoiar uma gangue menos pior contra outra gangue ainda pior, pensando estar avançando e acumulando forças.

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