O que está em jogo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O que está em jogo, n. 387, 07 mar. 2004.

 

 

A insistência com que alguns setores políticos se empenham em derrubar o ministro Dirceu, seja através de propostas conciliadoras, anunciadas pelo senador Jereissati, seja por meio de blefes, a exemplo das pretensas provas incriminatórias prometidas pelo senador Almeida Lima, aos poucos desnuda o que realmente está em jogo nesta crise.

Esses setores parecem haver se dado conta de que as contradições entre a política macroeconômica e os objetivos de crescimento econômico e geração de oportunidades de trabalho e emprego estão chegando a seu ponto limite. Elas empurrarão o governo, inevitavelmente, a algum tipo de decisão crucial sobre seus rumos futuros. Torna-se cada dia mais evidente que a combinação de juros e carga tributária elevados, superávits primários excessivos e compressão da renda dos trabalhadores e das classes médias não permitirá alavancar o crescimento econômico na medida necessária.

Isso, apesar das acrobacias matemáticas sobre índices dessazonalizados, praticadas por alguns funcionários do Banco Central. Pior: mesmo que as taxas de crescimento, na melhor das hipóteses, cheguem a 3,4% ou 4%, não criarão novas oportunidades de trabalho e emprego, nem reduzirão substancialmente as taxas de desemprego. O que pode ser politicamente mortal para o Partido dos Trabalhadores.

Supondo que o ministro Dirceu é o principal obstáculo à continuidade do viés neoliberal da política macroeconômica do governo, aqueles setores querem aproveitar qualquer oportunidade para defenestrá-lo. Desdenham a capacidade do presidente. Desdenham o papel dos demais membros do governo. Desdenham os dirigentes e militantes do PT. E supõem possível desestabilizar o governo, por meio de ataques a pontos nevrálgicos que fazem parte de seu ideário, enredando-o num acordo que represente o total abandono da estratégia de mudanças. A demissão de Zé Dirceu seria o sinal mais evidente desse compromisso esdrúxulo com a continuidade das políticas neoliberais, sob outra capa e outra administração.

Não há por que se enganar, pois, sobre o que está em jogo. Em tais condições, não basta ao governo tomar medidas para limpar a administração de Waldomiros de diversos coturnos, que conseguem infiltrar-se entre as melhores famílias. É fundamental desencadear as medidas que criem oportunidades de trabalho e gerem empregos, mesmo que elas se choquem com certas ortodoxias econômicas. O tempo se encurta e, sem resolver tal problema, as crises que podem emergir farão o caso Diniz parecer brincadeira de criança.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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