O povo no caminho

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O povo no caminho; 02 mai. 1998.

 

 

Dois acontecimentos ilustram a situação política brasileira: o incêndio de Roraima e o assassinato de dois líderes sem terra no Pará.

O incêndio do extremo norte é um exemplo acabado da negligência e do desprezo com que o governo FHC e a mídia tratam na prática as questões do país. Ninguém no governo e na grande imprensa, envolvido nas manobras e barganhas da reforma ministerial, prestou atenção ao desastre humano e ecológico que ocorria a mais de mil quilometros de Brasília.

Foi preciso o alerta internacional para que houvesse alguma movimentação, mesmo assim desencontrada e pouco efetiva. Não fosse a pajelança dos caciques de Mato Grosso, e o auxílio providencial das nuvens úmidas do Atlântico, e ainda hoje os bombeiros e voluntários que acorreram a Roraima estariam às voltas com o fogo.

O problema é que são esses os mesmos motivos que impedem o governo de dar atenção às epidemias de dengue e outras doenças que engrossam as filas dos hospitais públicos, que o levam a encobrir a falta de vagas nas escolas públicas com propagandas enganosas sobre a educação, que o fazem ignorar as trágicas estatísticas sobre o crescimento dos acidentes e mortes no trabalho, e que o tornam insensível à inadimplência e ao desemprego que degradam nossa sociedade.

O assassinato dos líderes sem terra, por outro lado, é um exemplo significativo de como o governo age, não diante do assassinato torpe, mas do movimento social que o tira da pachorra negligente e o força a adotar medidas, mesmo contra a vontade. Não disfarça sua ira contra os sem terra, na prática inocentando os latifundiários, ao responsabilizar o radicalismo do MST pelos conflitos. Mas é obrigado a anunciar medidas para punir os fazendeiros assassinos e para avançar um pouco mais na efetivação da reforma agrária.   Convenhamos que FHC e seu ministro da reforma agrária em 100 anos têm até certa razão quando acusam o MST de fazer política. Para eles, os sem terra dão um mau exemplo político, que pode ser seguido pelos desempregados, pelos inadimplentes, pelos quebrados, pelos carentes, pelos pobres, pelos miseráveis. Em outras palavras, pelo povo que vai despertando descontente da letargia fantasiosa de que todos estão bem sob o Real, alimentada pela mídia, que pode transformar seu descontentamento num vigoroso movimento social… e político, como o dos sem terra.

E esta é a última coisa que FHC e seus aliados querem ver em seu caminho.

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