O papel do PT

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O papel do PT, n. 149, 02 jul. 1999.

 

 

No momento em que ACM e o PMDB lutam como animais selvagens para ver quem se cacifa melhor para disputar as eleições presidenciais de 2002, vozes espertas se esmeram em convencer o PT de que seu papel consiste em apresentar propostas viáveis para a crise, só então se credenciando para o poder.

O argumento é simples. Não dá para negar o papel fundamental que o PT desempenhou nas mudanças ocorridas no país em todos os seus anos de existência. O PT, ao ser fundado, foi decisivo para romper a estrutura partidária que a ditadura estava montando para continuar no poder. Também foi fundamental para dar fim aos governos militares ao desencadear a campanha das diretas já.

Em 1989, o PT conseguiu polarizar o pleito presidencial ao transformar a campanha eleitoral num movimento de grandes massas populares. Depois, a participação do PT foi decisiva na campanha do impeachment contra Collor e tem sido fundamental na resistência contra o neoliberalismo. Onde estaria o erro do PT, que sempre o teria levado a assistir, apesar de seu reconhecido papel decisivo, à mudança de um grupo conservador por outro?

O erro estaria no fato do PT não apresentar propostas e projetos viáveis, capazes de fazê-lo disputar com eficiência a hegemonia na sociedade e colocá-lo como alternativa real de poder. Isto é que teria levado o PT, sempre, a ser mantido na simples condição de oposição.

Aqui há uma inverdade e uma inversão histórica. Primeira: nenhum partido brasileiro apresentou tantas propostas viáveis quanto o PT. O PT pode ser acusado de muita coisa, mas não de faltar-lhe propostas.

Segunda: propostas viáveis são necessárias, mas, historicamente, não são elas, necessariamente, que mobilizam as grandes massas e conduzem às mudanças e ao poder. Ao contrário, é a mobilização social que viabiliza tanto propostas viáveis, quanto algumas às vezes consideradas inviáveis.

Mobilização social em torno de metas concretas é fruto de idéias-força que sintetizem em palavras-de-ordem, slogans e símbolos os sentimentos, aspirações e desejos de massas de milhões. Foi assim nas diretas, foi assim no impeachment e tem sido assim em outras ocasiões históricas. Se o PT não chegou lá foi por outros erros e deficiências que o impediram de manter a hegemonia do processo mobilizatório, e não por ausência de propostas viáveis.

Neste momento em que o vácuo de poder se acentua e a burguesia manobra para mudar sem causar mudanças, mais do que nunca o papel do PT deveria ser o de encontrar justamente as idéias-força que sintetizem as presentes aspirações de milhões de brasileiros. E não se importar muito com as tarefas que elementos dessa mesma burguesia procuram impor-lhe.

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