O ovo e a galinha

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O ovo e a galinha, n. 236, s/d.

 

 

O bordão é constante: a economia está em seu melhor momento e prenuncia um crescimento sustentado, mas vaidades personalistas na base do governo criam instabilidade política e podem desandar a economia. Em outras palavras, numa paródia ao ditador Médici, a economia vai bem, mas a política vai mal. Há alguma verdade nisso. Nem bem saiu do rompimento com ACM e da troca de dois afinados ministros neoliberais de seu governo, FHC já se vê às voltas com novos vendavais políticos. Mesmo quando O Globo tenta ajudá-lo, levantando uma possível farsa do dossiê Cayman, ele não pode mandar investigar tudo, mas apenas os supostos farsantes. Tem que ficar com um flanco aberto ao deixar de fora a investigação da empresa acusada de ter como sócio o ex-ministro Sérgio Mota.

Algo idêntico ocorre em sua aliança com o PMDB. Vê-se agora obrigado a liquidar a Sudam, demitir diretores apadrinhados pelo novo presidente do Senado e mandar investigá-los, alimentando a necessidade de uma CPI para esclarecer tudo. Necessidade reforçada, por sua vez, por seu aliado Aécio Neves, ao pronunciar-se contra a privatização de Furnas e contra o modelo de privatização praticado pelos tecnocratas do governo. Os atuais e os ex-aliados do governo o comem pelas bordas.

Para completar, FHC lançou um novo plano para os dois próximos anos, na expectativa de criar um fato político de repercussão. Mas, para seu desespero, colhe apenas a impressão generalizada de que lançou um programa velho e mal requentado, de viabilidade duvidosa e pouca eficácia, até mesmo em termos publicitários. Assim, por mais que tente, FHC não consegue esconder que o país e o governo passam por uma crise política, cuja profundidade vai muito além do horizonte colorido que ele e seus analistas conseguem alcançar. Os grupos dominantes não brigam por vaidades feridas. Brigam porque o bolo de riqueza a ser repartido entre eles está se reduzindo, mesmo após haverem raspado o osso descarnado que cabia aos pobres e aos trabalhadores. A monopolização da economia pelas corporações capitalistas e a política de subordinação ao capital financeiro, que sugam as riquezas brasileiras, transformaram a disputa do que sobra para a burguesia nativa numa guerra entre gangues. As brigas pelos postos no poder de Estado são apenas as facetas políticas dessa guerra.

Como mostra nossa experiência histórica, se a economia estivesse bem, não haveria essas brigas. Os conflitos no âmbito do poder são, em grande parte, resultado da fragilidade e da instabilidade econômicas, mas rebatem sobre elas de tal forma que os desavisados são levados a crer que as crises políticas são a causa da intranqüilidade na economia. Ignoram que a economia e a política, da mesma forma que o ovo e a galinha, estão muito mais imbricadas do que pode supor a vã filosofia.

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