O outro lado da vitória

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O outro lado da vitória, n. 419, 16 out. 2004.

 

 

Os resultados eleitorais têm propiciado uma certa abundância de análises, nem sempre convergentes. Só há consenso de que a vitória do PT foi restrita. Quanto ao resto, há até alguns que apelam para o exemplo do Chile de Allende, quando a Unidade Popular elevou sua votação de 33% para 51% nas eleições municipais de 1971, com sua política de mudanças. A conclusão deles é que a vitória petista poderia ter sido muito maior se a política do governo Lula correspondesse mais claramente ao desejo de mudanças do povo brasileiro.

É pena que não tenham acrescentado o que ocorreu depois. Aquele crescimento da Unidade Popular parece não ter correspondido a uma real acumulação de forças e ela foi incapaz de contrapor-se ao golpe de Pinochet contra a política de mudanças. Assim, justamente tomando como exemplo o Chile, é preciso olhar com objetividade o crescimento petista. E notar, facilmente, que a correlação das forças políticas no Brasil continua desequilibrada para o PT, apesar do terrorismo psicológico, comandado pelo ex-presidente FHC, sobre o poder demasiado deste partido.

Em números reais, o PT obteve pouco mais da metade da votação de Lula no primeiro turno da eleição presidencial. Se o PT conseguir vencer nas 24 cidades que estão em disputa no segundo turno, uma missão quase impossível, ele terá o governo de pouco mais de 400 cidades, num universo de quase cinco mil municípios. Mesmo considerando que, do ponto de vista da população, isso representará cerca de 30% do país, não se pode desdenhar o fato de que tais vitórias só serão possíveis com composições políticas diversas e, portanto, concessões táticas (e, às vezes, estratégicas) diversas.

Falando francamente, esse é o outro lado da vitória do PT. Seu crescimento tem sido constante de uma eleição para outra, mas ele ainda não conseguiu mudar a correlação de forças. Esta ainda lhe é desfavorável, seja porque o movimento social brasileiro continua relativamente adormecido, na esperança de que as coisas se resolvam através das eleições, seja porque o próprio PT tem dificuldades para combinar adequadamente uma estratégia de mudanças com táticas de composição e concessões. Seja, ainda, porque setores da esquerda acham que podem mudar essa correlação com esforço discursivo ou gestos heróicos.

Nestas condições, como cautela e caldo de galinha só fazem mal se forem transformados em alimento único, por um longo período, as ambigüidades políticas do PT e do governo devem continuar. Mesmo porque, como é difícil dizer o que é pior, errar um pouco em desvios de direita ou ser brutalmente derrotado em desvios de esquerda, será preciso dar tempo ao tempo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *