O outro lado da moeda

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O outro lado da moeda, n. 310, 24 ago. 2002.

 

 

A imprensa bem que tenta. Para ela, ao convidar os principais candidatos à presidência para conversar, FHC teria dado um exemplo de grande estadista. E, de bandeja, conseguido o compromisso com o cumprimento dos contratos e da meta de superávit. Ou, como estampou a manchete de O Globo: “Candidatos dizem a FH que vão cumprir metas do FMI”.

Mas o outro lado da moeda está nas manchetes secundárias: “Lula, Ciro e Garotinho avisam, porém, que vão mudar a política econômica atual”. E, nas notícias quase-escondidas, que mostram um presidente preocupado em “não passar para a História como um homem que entregou a economia ao sucessor em pedaços”, e que falam de “um cenário difícil” e de uma situação que “poderia piorar sem uma transição harmoniosa”.

Todos sabem que nem a equipe sabuja de FHC conseguiu cumprir cem por cento as metas do FMI. Nem Malan, nem Gustavo Franco (lembram dele?), nem Armínio Fraga, conseguiram esse feito. O ex-ministro Cavallo, que deu a martelada final na quebradeira argentina, foi um dos mais fiéis vassalos do FMI, e nem por isso suas promessas para o FMI foram cumpridas. Por que?

Porque existe um mercado que se move não por promessas, mas fundamentalmente pelos dados reais da economia e da política. Esse mercado sabe que a economia brasileira está “em pedaços”, num “cenário muito difícil”. Então, se o próprio FHC viu-se obrigado a confessar a seus interlocutores o que sempre negou em público, e a engolir sua vaidade, na tentativa de não passar à História como o “despedaçador”, que razões terá o mercado para “sossegar”?

A única razão seria FHC capitalizar os encontros em benefício do candidato do próprio mercado. Para isso, a primeira condição seria que Lula e/ou Ciro se negassem-se a ir ao encontro. A máquina de propaganda alardearia a falta de estatura política dos faltosos e sua incapacidade para dialogar em momentos de crise. A segunda seria que ambos, ou um deles, exigisse a imediata revogação do acordo com o FMI, como Ciro chegou a ensaiar. Isso “legitimaria” ações especulativas posteriores, abrindo campo para ataques aos “riscos” representados por Lula e/ou Ciro. A terceira condição residia na aceitação pura e simples do acordo com o FMI, sem qualquer acréscimo de propostas emergenciais, nem de compromissos com a “mudança da política econômica atual”.

Nenhuma dessas condições foi atendida. FHC pode parecer contente porque a mídia está fazendo média com seu ato “histórico”. Mas o mercado está frustrado. Para ter seu candidato no segundo turno contra Lula, terá primeiro que derrubar Ciro. Assim, não espere calma do mercado, nem que Serra deixe de bater duro em Ciro.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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