O mínimo e o máximo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O mínimo e o máximo, n. 311, 31 ago. 2002.

 

 

A campanha eleitoral parece navegar, como dizem alguns, livre das disputas ideológicas. Finalmente, elas teriam se reduzido a poucas diferenças programáticas e ao esforço de formar alianças em torno da capacidade de governar. Problemas como os do latifúndio, estatização, privatizações, FMI, dívida externa, estabilidade versus crescimento e outras do tipo, já não consumiriam os esforços dos principais candidatos.

Assim, não é só a esquerda que às vezes se atrapalha com as relações entre estratégia e tática. Há sempre quem queira transformar as questões estratégicas em proposições táticas e pretenda que o povão engula a estratégia sem haver passado pela experiência tática. Ou, do outro lado, quem inverta essas relações. Um exemplo dessa dupla confusão: Lula foi à Confederação da Agricultura e não xingou o latifúndio. Para alguns, isso foi abandono de luta ideológica dogmática. Para outros, pareceu crime de lesa-pátria contra o povo.

A miopia, em ambos os casos, é grave. Ao defender a reforma agrária sem subterfúgios, afinal o que está sendo proposto? A manutenção do latifúndio? Ao defender o papel do Estado à frente de grandes empresas estratégicas, e o controle público sobre elas, o que se quer? A continuidade das privatizações? Ao defender prioridade absoluta à geração de empregos, o que se pretende? Manter a política de atração de grandes empresas poupadoras de mão-de-obra? Ao afirmar sem rebuços que a atual política econômica será mudada, o que se proclama? Que o FMI continuará ditando a política econômica do país?

Quando se trava uma batalha tática, os objetivos devem ser táticos. Seus laços com os objetivos estratégicos nem sempre têm a devida transparência. Além disso, a objetivação tática pode tanto ser realizada de forma negativa (abaixo o latifúndio!), quanto de forma positiva (faremos a reforma agrária!), dependendo da consciência do povo sobre o assunto e da possibilidade de confundir os adversários.

Na atual campanha presidencial não estão em disputa objetivos estratégicos. Trata-se de uma disputa tática. E o centro dessa tática é a conquista do governo, não do poder. Mas a vitória de Lula pode colocar as forças da esquerda popular, pela primeira vez na história brasileira, diante da possibilidade concreta de iniciar a resolução dos problemas do país: fazer a reforma agrária, implantar uma política de crescimento com geração de empregos, recriar novas empresas públicas estratégicas, implantar uma reforma tributária que desonere a produção e o povo, criar núcleos tecnológicos e financeiros próprios etc etc etc.

Se a esquerda não souber mobilizar os grandes contingentes da população brasileira em torno dessas proposições positivas e conduzir Lula à vitória, apenas demonstrará sua incapacidade para realizar o mínimo. Como, então, pode querer transformar a sociedade brasileira, realizando o máximo?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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