O médico e o monstro

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O médico e o monstro, n. 170, 24 nov. 1999.

 

 

É famosa a fábula do médico dedicado que, para demonstrar o efeito de de certos produtos químicos, os bebe e se transforma num monstro assassino. Nosso surpreendente chefe de governo resolveu praticá-la ao contrário em  Florença, na reunião da terceira via. Transformou-se milagrosamente no médico.         Vestindo ternos impecáveis, para aposentado algum botar defeito, defendeu o controle dos capitais voláteis, a instituição da taxa Tobin e só faltou dizer que, a partir daquele momento, voltaria a ser um consequente social-democrata da velha estirpe do bem-estar social, ingressando no movimento internacional pelo controle do capital financeiro.

Para sorte das corporações mundiais, Clinton e Blair não sofreram qualquer metamorfose e foram enfáticos na defesa dos donos do dinheiro. Afinal, ninguém vai botar dinheiro onde não possa fazer dinheiro ou em países que estejam pensando em seus próprios interesses. E, para corroborar que a transformação de FHC talvez tenha sido simples performance internacional para destacar-se da mesmice terceirista, na outra ponta, discursando para banqueiros e investidores em Amsterdã, sob os auspícios do Amro Bank, Malan garantiu que a adoção de um mecanismo de controle de fluxo de capitais similar à taxa Tobin é de difícil execução.

Em outras palavras, o bom-mocismo e o elogiado bom senso do presidente foram exclusivamente para francês ver, já que o inglês não estava nem aí para as preocupações de FHC com sua imagem externa. De volta, é quase certo que mandará que esqueçam o que disse e continuará fiel à política que, como o avesso neoliberal do médico social-democrata, vem aplicando prazerosamente.

De qualquer modo, a reunião de Florença, ao convocar FHC, destaca que os problemas do capitalismo continuam em suspenso e que uma crise no Brasil já não pode ser tratada como questão de segunda categoria. Os novos fatores de instabilidade financeira, econômica, social e política, causados pela globalização das grandes corporações empresariais, já não conseguem ser solucionados pelas políticas tradicionais de direita ou da esquerda.

Seu impacto sobre as relações sociais e políticas dentro de cada país e sobre as relações internacionais é muito mais devastador do que normalmente se diz, com um grau de imponderabilidade considerável. A terceira via criada por Blair é uma tentativa de achar um caminho intermediário entre as tradicionais políticas neoliberais e social-democratas e, através dele, modernizar o capitalismo para salvá-lo. Ou seja, achar um meio termo entre o médico e o monstro. Não está fácil, como demonstra a frustrada tentativa de nosso FHC.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *